por SCHNEIDER CARPEGGIANI
[ABRE-ENTREV]Quem ler o novo romance do escritor pernambucano Fernando Monteiro, A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro (Editora Globo, R$ 21), esperando encontrar – apenas – a biografia fictícia de um homem real (no caso, o russo Dmitri Vonizin, que foi conservador-chefe no Museu Nacional do Rio, com o nome de Alberto Childe), como espalha seu resumo e algumas das últimas declarações do autor, irá se surpreender e cair mais facilmente em seus inúmeros alçapões – ou sarcófagos. O livro foge, e muito, dessa camisa-de-força. Monteiro radicaliza as experiências da realização de um romance contemporâneo, que havia iniciado em suas obras anteriores, e constrói um complicado mosaico, cuja última peça só se encaixa no momento derradeiro. A idéia que parece permear A Múmia é a de que não basta mais ter uma boa história, mas sim a posse da maneira exata para desestruturá-la, requentá-la e, por fim, requintá-la, completando dessa forma sua sedução. Nesta entrevista, Fernando Monteiro explica essa sua ‘forma’ de escrever um romance e da sua dificuldade em explicar seu livro.
JORNAL DO COMMERCIO – Nos resumos que têm aparecido sobre o seu novo romance, A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro, sugere-se que ele seria a “biografia fictícia de um homem real”. Essa não é uma forma um tanto reduzida de se falar de um livro tão complexo?
FERNANDO MONTEIRO – Sem dúvida que é. Embora o livro seja também isso – “a biografia fictícia de um homem real” – concordo com você, e acho que tal “descrição” simplifica, ‘reduz’ o universo da Múmia, que tem inúmeras camadas de leitura, conta até uma história de amor impossível, talvez aspire a ser inclusive uma espécie de ‘omance da arqueologia d e, no final, quem sabe talvez não seja exatamente nenhuma dessas coisas. Desde que comecei a escrevê-lo, eu tinha muita dificuldade em resumir a trama do romance, quando alguns amigos me perguntavam: sobre o que é o livro? Para dar alguma resposta, eu começava por Vonizin: “sobre um russo que veio viver no Brasil”... o que é verdade, mas uma verdade muito relativa - como toda verdade da vida e da ficção (principalmente), que se confundem. De qualquer modo, eu necessito de uma ‘grade’ de real para estruturar uma narrativa. Posso inventar essa ‘grade’, para meu uso – como no Aspades (seu primeiro livro de ficção) – ou posso ir buscar tal material entre os dados, factuais, da ‘realidade’, mas quero sempre alcançar o efeito alucinantemente real do simulacro, e não do mero realismo. A ficção não deve oferecer, na minha opinião, um simples duplicado da vida, mas sim uma intensificação do seu significado, capaz de se tornar mais verídica do que o real ‘realista’ (se é que me faço entender nisso que não é apenas um jogo de palavras).
JC – Como você chegou à história de Dmitri Vonizin?
FM – Eu sempre fui interessado pelas civilizações antigas. Meu primeiro livro de poesia, Memória do Mar Sublevado (1973) trata da aventura espiritual de Akhenaton, o faraó da décima-oitava dinastia que foi o primeiro monoteísta. Em 1986, publiquei um ensaio sobre ele, inaugurando a coleção Pensamento & Ação, da Editora Expressão (SP). Andei pelo Egito, Oriente Médio, viajei pela antiga Anatólia e isso tudo incluiu também o interesse pelo muito interessante acervo de antiguidades clássicas do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. Dmitri Vonizin, sob o nome de Alberto Childe, foi o conservador-chefe dessas antiguidades (cargo que manteve até morrer, em 1950) e me deparei com ele – isto é, com a memória da sua misteriosa vida – no curso das minhas visitas ao local. Daí até imaginar que Vonizin/Childe seria um personagem ideal para um livro, não demorou muito.
JC – Em A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro, você radicaliza a busca por quebrar com, digamos, as formas mais tradicionais da narrativa, iniciada em seus livros anteriores – A Cabeça no Fundo do Entulho e Aspades, Ets etc. Você anda cansado com a narrativa dos autores atuais?
FM – Acho que estamos todos cansados, autores e leitores. Quer dizer, pelo menos os autores realmente literários e os leitores interessados numa verdadeira leitura (no que ela tem de mergulho). Ademais, todas as histórias - creio – de algum modo já foram contadas, desde a epopéia de Gilgamesh até o Ulisses, de Joyce. Assim, os melhores escritores contemporâneos estão, em parte, escrevendo sobre a escrita (Calvino, Borges, Kadaré) e, portanto, e são conscientes do “artificialismo” da literatura, do ato de narrar e inventar histórias (todas já escritas & lidas) sobre a vida etc. O que pode ser feito de novo – nessa circunstância de repetição e cópia involuntárias – é, talvez, o esforço por estranhar a narrativa, ou operação de corte capaz de obter, do leitor, o necessário distanciamento que o levará a apreciar a própria ‘máquina de narrar’ em plena função. É como um restaurante que tenta despertar o apetite gasto do freguês porque usa novos temperos e ao mesmo lhe devassa, por uma janela, todos os segredos do chef e da cozinha...
JC – Na sua opinião, que tipo de autor merece ser lido?
FM – O inquieto e o lateral, o rebelde e o marginal. A literatura não é um paraíso, uma pequena mina de prata para produzir penduricalhos, pés de coelho e amados talismãs de Ubaldos, folclores e Bahias temáticas de Disney. O Brasil precisa perder essa mania de se considerar ‘curioso’, ‘folclórico’ e ‘colorido’ – com o intuito de ser aceito pelos turistas da literatura. Restauremos a lição clássica de Machado de Assis, a sutileza de Raul Pompéia e Cornélio Pena, a profundidade psicológica de Lúcio Cardoso, o original surrealismo de Dionélio Machado, a angústia de Octávio de Faria e o bisturi delicado de Clarice. Nossa herança literária pertence, na sua melhor linhagem, a criadores desse porte (na ficção). Mas não se trata de simplesmente prosseguir com o que eles faziam -– noutro tempo – mas de entroncar, hoje, o melhor dessa tradição com o modus imediato, da contemporaneidade, temporal e virtual, de tudo.
JC – Em entrevistas anteriores, você declarou que o autor precisa saber seduzir o leitor. É difícil ser respeitado pela crítica, como é o seu caso, e ser popular nas livrarias ao mesmo tempo?
FM – Acho possível conciliar qualidade & vendagem, até um certo limite. Sou consciente de que meus livros vendem bem (é o que dizem os editores), mas sei que isso ocorre dentro de certa margem de público que compra CDs de qualidade, freqüenta as salas de filmes de arte e busca o melhor teatro, as melhores revistas etc. Em São Paulo, no Rio e em mais alguns Estados do Sul - e somando-se com os nossos redutos nordestinos de bom gosto - isso aí forma um público considerável, maior do que se imagina. É tal público que eu suponho estar alcançando, como autor... E, com um detalhe: é um público que você não consegue enganar. Ele sabe o que quer ler e o que quer ver, aquilo com que quer ter contato: com o produto refinado da cultura universal que pertence a nós todos, hoje em dia (pelo menos no bloco cultural do Ocidente). Acho que não foi senão nessa direção que trabalhou, aqui mesmo no Recife, um músico de talento extraordinário como o Chico Science...
JC – Você já declarou, sobre A Múmia, que o livro começa como uma espécie de filme, no qual o leitor chegou atrasado e perdeu o início da sessão, e que o prólogo da obra remete a um clima de Lawrence da Arábia. Você poderia falar um pouco do diálogo entre literatura e cinema que permeia sua obra, desde Aspades, que trata de um diretor português fictício?
FM – Bom, esse imagem do Lawrence é quase uma brincadeira, uma alusão ao cenário suntuoso que abre o romance. Os primeiros leitores que me comunicaram suas impressões disseram que o prólogo da Múmia os havia arrastado para dentro de algo como um filme, entre ladrilhos, fontes e louças orientais. Daí que fiz essa imagem... Mas há, de fato, uma permanente ligação do cinema com a minha ficção. Fui cineasta durante um bom tempo (enquanto - paralelamente - sempre escrevi) e considero uma sorte se acaso eu introjetei, segundo dizem, uma câmera, ou várias câmeras, no sangue literário, na pupila aberta para introduzir o leitor num palácio cairota do século 19 num mocambo da plena atualidade, com cor, cheiros e ruídos. Acho que isso é mais patente em A Cabeça no Fundo do Entulho – um romance cinematográfico, acho, do princípio ao fim, de tal modo que muitos leitores me disseram que leram, de jato, umas cem páginas, quase sem parar. Fico contente em saber que pude “seduzir” esses leitores de hoje – bombardeados por tantos apelos visuais etc – até tal centro de interesse concentrado, como é o caso dos bons e atentos espectadores de cinema. De certa maneira, minha meta talvez seja vir a narrar, literariamente, uma espécie de filme total de palavras, num futuro romance tridimensional que possa conter todo um naco de completa realidade... Quem sabe?