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A bancada dos cínicos por GUSTAVO KRAUSE Manuel Torres foi insuperável como professor de português e latim na preparação dos alunos para o vestibular de Direito. Supria, com sobra, as deficiências dos colégios e quem não aprendesse com ele estaria condenado às trevas da ignorância. Um dos recursos mais eficientes que utilizava era o impiedoso sarcasmo. No primeiro dia de aula da turma de que fiz parte, ano de 1963 (o curso funcionava no último andar do Edifício Santo Albino) cada aluno se apresentava dizendo o nome, naturalidade e colégio onde cursara o clássico ou o científico. O terceiro a se apresentar foi uma cabra de cara amarrada, corpo roliço, cabeleira escovinha que acentuava o traço retilíneo de uma mandíbula saliente, realçada por um discreto, porém ameaçador, prognatismo. Com a voz arrastada anunciou: Sou do sertão de Ceará e me chamo Gelvásio Castelo Branco. O Sr. quer dizer Gervásio, corrigiu Torres com um tom irônico. O nome é meu e eu digo como quero. A conversa parou por aí. Ninguém se atrevia a tirar graça com Gervásio que continuou, impunemente, a trocar o r pelo l, inclusive num dia em que, inadvertidamente, perguntei-lhe (o pai de Gervásio perdeu o braço num desastre de automóvel): Gervásio, como foi que teu pai ficou cotó? Cotó é cachorro seu filho da puta, meu pai é impelfeito. (Se não fosse a turma do deixa-disso, teria levado merecida camada de pau). Pois bem, naquele ano introduziram duas matérias novas no vestibular história e filosofia além de português, latim e francês ou inglês, o que exigiu um esforço adicional da turma e a incorporação ao corpo docente de um jovem professor de filosofia que, para despertar interesse na turma, usava recursos pouco convencionais para época. Um dia começou a aula de filosofia perguntando se, na turma, tinha alguém cínico. Gervásio tomou as dores e disse que cínico ali só tinha o professor. Era exatamente o mote que o nosso mestre queria para prosseguir explorando a filosofia grega no período socrático. Calma meu caro Gervásio disse o professor abrandando o iracundo sertanejo cínico pode ter vários significados. Vem do latim cynicus, a, um (adjetivo de primeira classe) e significa de cão, canino, atacado de espasmo canino. Ou seguidor do cinismo, escola filosófica fundada por Antístenes de Atenas, da qual o representante mais importante foi Diógenes de Sinope. Os cínicos, meus caros amigos, eram contestadores dos padrões vigentes e das convenções. Eram discípulos de uma contracultura e espécie de híppies do mundo helênico. Despojados, acreditavam que a felicidade e uma vida em harmonia com a natureza não dependiam de riqueza, nem de poder. Diógenes, por exemplo, morava dentro de um tonel e tudo que pediu ao seu admirador Alexandre, o Grande disposto a atendê-lo nos maiores desejos, foi que sua sombra não o impedisse de tomar banho de sol. A origem do nome cinismo vem de Cynosarge, o mausoléu do cão, lugar onde Antístenes ensinava. Sem tomar fôlego, o mestre arrematou: Na acepção corrente, cínico é um desavergonhado, descarado e que age com desfaçatez e imprudência. Indivíduo amoral que nutre um profundo desprezo por palavras dadas e compromissos assumidos. Na irretocável definição de Oscar Wilde é um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada. De repente, estas lembranças me chegaram. E não foi à toa. Receberam um decisivo estímulo do comportamento adesista de ilustres vereadores, na eleição da mesa da Câmara, que, como cracas, não largam o poder. Nada que possa surpreender no jogo sujo da politcagem. Só que, desta vez, a bancada dos cínicos nunca esteve tão numerosa. Gustavo Krause, Consultor de Empresas, foi Ministro da Fazenda e do Meio Ambiente.
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