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MÚSICA O velho canto que vem de Portugal Gravadora Movieplay aproveita badalação em cima de Os Maias, de Eça de Queirós, e lança pacote de discos com várias fases da música portuguesa POR JOSÉ TELES Com exceção dos cantores Francisco José, no início dos anos 60, e Roberto Leal, nos 70 (este mesmo mais para o brega brasileiro com sotaque luso) a música de Portugal nunca fez grande sucesso no Brasil. A própria Amália Rodrigues, primeira dama do fado, tocou muito pouco por aqui. Coincidindo com a estréia da minisséria Os Maias, na TV Globo, a Movieplay lança um mini-pacote de CDs, com nomes que vão do fado ortodoxo de Amália Rodrigues, o folk revolucionário de Zeca Afonso, à contemporaneidade de Dulce Pontes. Entre uns e outros, o erudito José Calvário, a influência do jazz de Carlos do Carmo, o centenário coro orfeônico da Universidade de Coimbra, até o monge-cantor Frei Hermano da Câmara. Continuadora de uma tradição iniciada por Maria Severa, no século 19, Amália Rodrigues, cuja carreira começou em 1939, confunde-se com o fado, um gênero musical que comunga de afinidades com o blues e o tango argentino, pela grande carga de tristeza que carrega consigo. A fadista tem quatro CDs neste pacote da Movieplay. São coletâneas, em que se sobressai pela escolha do repertório, e uma voz que traduz toda melancolia da música que canta. Lamentável que os CDs não venham com um encarte com a ficha técnica - nomes de músicos e data de gravação. Pela sonoridade, estas canções são dos anos 50 e 60. O acompanhamento é ortodoxo, sobressaindo-se, obviamente, a guitarra portuguesa. Ai Mouraria, Triste Sina, Fado Malhoa e Fado Amália, são os títulos do CDs de Amália Rodrigues. Não há nenhum que precise indicação especial, os quatro mostram variantes do fado, a cantora garante-lhes a qualidade. Para os iniciantes, pela maior quantidade de canções conhecidas, Ai Mouraria seria uma boa introdução ao fado, e ao belo canto de sua grande dama. Canoas do Tejo é o disco de Carlos do Carmo. Ele se equilibra entre o tradicional e o moderno. Prefere cordas discretas como acompanhamento, mas em Ferro velho, flui um solo nervoso de uma guitarra elétrica de jazz. Curioso que algumas letras, ele se aproxime do tango clássico, em Partir é morrer um pouco (Mascarenhas Barreto/Antonio dos Santos), do Carmo canta: Adeus parceiros das farras/Dos copos e das noitadas/Adeus sombras da cidade/Adeus langor das guitarras, um tema muito próximo do clássico Adios Muchachos, (César F.Vedani/Julio César Sanders). José Calvário é um músico de formação erudita, um dos maiores orquestradores e arranjadores portugueses, embora more em Londres há mais de duas décadas. Neste CD que leva seu nome por título, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Londres, ele interpreta canções portuguesas dos anos 70 (nove das 16 do CD concorreram ao festival RTP da Canção). Seu Steinway por vezes soa com a delicadeza de um Chopin. Mas não se pense que haja total predominância de cordas e piano. Em meio a uma tema pode irromper o sax, do jazzman inglês Martin Dogson, ou a harmônica de Paul Jones (que integrou o grupo de rock dos 60 Manfred Mann). Um disco importante neste pacote, não apenas pela qualidade da música, mas por mostrar que nem só de fados vivem os artists da Terrinha. Esta fartura de musicalidade que assola o Brasil (no bom sentido) é uma herança portuguesa com certeza, mesclada às influências indígenas e africanas. Aliás o fado tem seu pé na senzala, vindo do lundu e da fofa. Povo musical por natureza, os portugueses deflagraram a Revolução dos Cravos, em abril e 1974, tendo como senha duas canções. A primeira delas, foi E depois do adeus, interpretada por Paulo de Carvalho, nos Emissores Associados de Lisboa, marca o início das operações militares contra o regime. No dia 25, 20 minutos depois da meia-noite, Grandola vila morena, composição de Zeca Afonso, censurada pelo regime salazarista (ele próprio havia sido exilado na França), tocada no programa Limite, da Rádio Renacença, foi a senha escolhida pelo MFA para confirmar que as operações militares para derrubar a ditadura estavam em marcha e tornaram-se irreversíveis. A histórica Grândola vila morena está no imperdível CD Cantigas do Maio, de José Zeca Afonso. Ele seria, mal comparando, uma mistura de Chico Buarque com Peter Seeger. O disco também é revolucionário esteticamente. Gravado no lendário complexo de estúdios Abbey Road, em Londres, ele contou com a fundamental participação do músico e produtor José Mário Branco. Até então Zeca Afonso gravava acompanhado por instrumentos tradicionais. Foi Mário Branco que convenceu o relutante Afonso a experimentar com novas sonoridades e harmonizações. O resultado é um trabalho que tem paralelo com o que Bob Dylan realizou com o folkblues americano no início dos anos 60. Os Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra são uma tradição no canto orfeonico português, o grupo é centenário, formado unicamente por homens. Neste disco, ele é acompanhado pela primeira vez por uma grande orquestra, a Filarmônica de Londres, com orquestrações de José Calvário. O repertório também é de primeira, com canções contemporâneas de Zeca Afonso, Adriano Correia (ambos ex-orfeonistas, tradicionais (Coimbra não poderia ficar de fora) e poemas musicados de Camões. Sem ser exatamente um Padre Marcelo Rossi em popularidade, o Frei Hermano da Câmara, tem seu público certo em Portugal. Neste disco ele canta canções compostas por ele e parceiros, e um poema de Tereza de Ávila, com acompanhamento da Filarmônica de Londres, e participação do coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra. Ao contrário do que vem acontecendo no Brasil, onde com a suposta finalidade de popularizar o nome de Jesus, acabaram inventando o brega religioso, o Frei Hermano da Câmara canta canções acessíveis, mas não popularescas, tudo envolto em refinamento e bom gosto. Dulce Pontes chegou a ter música incluída trilha da novela As Pupilas do Senhor Reitor. Seu único disco até então saído no Brasil foi Lágrimas (o segundo de sua carreira). Caminhos, o CD que a Movieplay acaba de lançar é um disco de fados, mas longe da ortodoxia, utilizando teclados, programações, enfim buscando uma sonoridade moderna. Dulce José Silva Pontes é talvez, a artista da canção portuguesa mais bem sucedida em termos internacionais. O defeito destes lançamentos da Movieplay é que o mais recente data de meados dos anos 90 (o disco de Dulce Pontes, por exemplo, é de 1996). Por que não complementar o pacote com a música que se faz atualmente em Portugal? |
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