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Balanço diplomático

Ao aproximar-se a posse de um novo presidente dos Estados Unidos, George W Bush, é uma boa hora para um balanço de nossas questões internacionais, principalmente de nossas relações com o gigante do norte, que não se deita eternamente em berço esplêndido. Para o diplomata Luiz Felipe Lampreia, que está deixando o Itamaraty, após seis anos como ministro das Relações Exteriores, para assumir a presidência do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, o grande desafio da diplomacia brasileira é estabelecer os limites com o mais rico e importante país do mundo, cuja “vocação messiânica” ele critica.

Antes de sair, ele fez um balanço das questões e problemas que seu sucessor terá de enfrentrar. A política externa brasileira está traçada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e Lampreia não crê que haja intenção de alterá-la. Os desafios são permanentes: continuar a aprofundar e aperfeiçoar o Mercosul; estabelecer, com a nova administração americana, as melhores relações possíveis; manter uma defesa vigilante dos nossos interesses nas negociações comerciais internacionais; desenvolver melhores relações com os países da União Européia, com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, os países da África e da Ásia, sobretudo África do Sul, China, Indonésia, Japão, e “o novo Timor”, que nós temos que, cada vez mais, ajudar a consolidar-se”.

Nosso país, diz o diplomata, tem um papel adequado ao seu tamanho: “O Brasil não pode querer ser mais do que é, mesmo porque tem uma série de limitações, a principal das quais é o seu déficit social. Mas eu creio que o Brasil tem uma posição muito presente, muito ativa, no plano regional , multilateral e mundial”. Lamenta o que considera talvez seu pior momento no Itamaraty, o fracasso da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Seattle (EUA), quando havia expectativa de lançamento de uma nova rodada de negociações no quadro do organismo, com propostas e defesa de modificações no que já foi estabelecido para o comércio internacional.

O diplomata acredita que o pior já passou na crise do Mercosul e que agora nós estamos numa fase de progresso gradual. Sobre a Alca (Associação de Livre Comércio das Américas), proposta americana que engloba todos os países americanos, menos (por enquanto) Cuba, diz que é preciso ver o que o novo Governo dos EUA vai pensar e querer. Os interesses do Brasil na Alca já foram claramente estabelecidos e, até agora, o Governo vem conseguindo preservá-los. O principal é a consolidação prévia do Mercosul: “Eu acho que o entendimento final na Alca tem de ser entre os Estados Unidos e o Brasil”.

O grande combate que continua sendo travado é contra o protecionismo dos desenvolvidos, que pregam abertura irrestrita de mercados aos países sem acesso ao fechado clube dos ricos, mas não a praticam. Lampreia propõe um núcleo rígido dos principais países em desenvolvimento: Brasil, África do Sul, Egito, Índia e talvez Argentina. Concordamos com ele em que o Brasil “precisa ter, ao mesmo tempo, as melhores relações com os Estados Unidos e uma posição muito própria, não subordinada aos EUA. Esse é o equilíbrio, o desafio permanente da diplomacia brasileira, desde os tempos do Barão do Rio Branco”. Felizmente, estamos longe do “o que bom para os EUA é bom para o Brasil”, princípio vigente após o golpe de 1964.



Jornal do Commercio
Recife - 11.01.2001
Quinta-feira