Em 1899 Sigmund Freud escreveu A interpretação dos sonhos, obra sobre a qual ele mesmo daria a seguinte definição mais tarde, em carta enviada a Carl Jung: “Completei a minha obra. A mim não resta mais nada a fazer, a não ser me deitar e morrer”, e disse em outra carta, desta vez ao seu amigo Wilhelm Fliess, que o livro “é todo planejado segundo o modelo de uma caminhada imaginária”.Os efeitos da obra só foram sentidos no decorrer do século XX.
O livro de Freud soava estranho para a sociedade da época, a começar pelo seu título, muito intrigrante para um trabalho científico. Analisando alguns predecessores na interpretação de sonhos, a começar por Aristóteles, até seus contemporâneos, Freud apresentou à sociedade científica suas conflitantes e contraditórias especulações sobre a matéria.
Embora aos 39 anos não passasse de um especialista desconhecido na área da neurologia, Freud escreveu novamente ao amigo Fliess, após a publicação de sua obra, indagando: “você acha que algum dia afixarão à parede desta casa uma placa de mármore com os dizeres: Aqui, a 24 de julho de 1895, o segredo dos sonhos foi revelado ao Dr. Sigmund Freud? Por ora, parece pouco provável”, sentenciou.
Foi no mesmo ano de 1895 que Freud escreveu sua primeira obra: Estudos sobre a Histeria, em parceria com Josef Breuer. Pela primeira vez se adotava o método de escutar o paciente, ao invés de apenas observá-lo. Era como uma ‘declaração de independência para os doentes’. A partir daquele momento, estava decretado que o médico não poderia mais estudar os pacientes como objetos inanimados.
No final do século XIX a psicologia procurava sistemas classificatórios. A vida mental estava sendo dividida e subdividida em categorias, proliferando as denominações para as desordens e os tipos de personalidade, onde cada categorização erguia uma nova barreira. Freud acabou com a moda de reprimir idéias em compartimentos isolados. Em sua teoria, graus de diferença tomaram o lugar das distinções qualitativas absolutas. Os sonhos e o consciente pertencem a um único sistema. Os graus de diferença são tudo o que separam a criança do adulto, o macho da fêmea, a loucura da sanidade.
Freud trabalhou freneticamente no final do século passado para dotar ao mundo de caminhos a serem seguidos a partir do século XX, guiando a humanidade, através de suas teorias, na viagem pela terra dos sonhos, virando praticamente o antigo mundo de cabeça para baixo.