Pesquisa da Unicamp revela que mulheres entre 45 e 60 anos têm cerca de 10 relações sexuais por mês, contrariando a idéia de que mulheres maduras definham após a menopausa
por LUIZA MODESTO
Mulheres maduras deixam claro que, em termos de sexo, não brincam em serviço. Encaram a atividade com freqüência, sem economizar tempo e energia. Pelo menos é o que revela a tese de doutorado A Sexualidade no Climatério, do ginecologista Valdir Tadini, realizada em Campinas (SP) e defendida na Universidade de Campinas (Unicamp), em setembro do ano passado. Não por acaso, a tese do professor de pós-graduação e diretor científico do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, de São Paulo, está sendo chamada, nos corredores da Unicamp, de efeito Vera Fischer. O nome da ex-Miss Brasil serve como símbolo para explicar o ‘fogo’ das mulheres entrevistadas, confirmado através da pesquisa.
O trabalho científico, que contou com o apoio do Fundo de Apoio e Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), informa que 29% de 68% de mulheres com vida sexual ativa têm até 10 relações por mês e que 88% dessas sentem prazer durante o ato sexual. Diante de tais dados, o leitor pode pensar que o universo feminino em questão encontra-se na faixa dos 30 e poucos anos. Não é a verdade.
As entrevistadas, na realidade, estão entre 45 e 60 anos. Portanto, são filhas da revolução que levou as mulheres às ruas para queimar sutiãs; desfrutaram das primeiras pílulas de anticoncepcionais disponíveis no mercado; e aprovaram a irreverência dos pais do tropicalismo. Implica dizer, também, que vivem o período pré-menopausa e pós-menopausa, e que, apesar das transformações hormonais, continuam usufruindo do sexo com regularidade, sem deixar a dever para as mais jovens.
Segundo Tadini, está é primeira vez que se aborda cientificamente a sexualidade das mulheres dessa faixa etária no Brasil e em outros países latino-americanos. E, para surpresa de alguns, o estudo derruba impressões defendidas pela mídia e pela maioria da sociedade médica de que há um declínio no interesse feminino por sexo durante esse período.
“Minha pesquisa prova cientificamente que as mulheres dessa faixa etária estão mais do que nunca ativas no período do climatério e, melhor ainda, tendo prazer em suas experiências sexuais, ao contrário do que se divulga”, conta Tadini, em entrevista por telefone ao JC, acrescentando que os profissionais de saúde têm uma certa tendência para escutar apenas as que reclamam.
A decisão pelo projeto Sexualidade no Climatério surgiu da indicação de seu orientador de pós-graduação, o ginecologista Aarão Mendes Pinto Neto. “Eu quis provar que o que eu ouvia de rodas de conversas e lia na mídia não era verdade”. Para isso, o ginecologista valeu-se de uma equipe de recenseadores, que visitou 456 domicílios campinenses em busca de escutar o que as mulheres maduras do lugar tinham a dizer sobre o assunto. “Cientificamente, necessitávamos de um total de 390 questionários, já que a população feminina campinense entre 45 e 60 anos era de 79 mil mulheres. Mas resolvemos aumentar para 456, para dar mais segurança metodológica à pesquisa, realizada nos últimos meses de 1997 e início de 1998,”, explica.
SEM ESPANTO – O fato de as mulheres mostrarem-se bem resolvidas sexualmente em período supostamente desfavorável à saúde e à estética não espantou Tadini. “Nos últimos 50 anos, houve uma mudança grande no comportamento feminino. As mulheres avançaram muito ao longo do tempo. No Brasil, ao contrário de outros países, nós não tivemos uma revolução feminista, mas uma revolução feminina”, diz, acrescentando que as brasileiras partiram em defesa do seu prazer e não do homem. O resultado dessa atitude explica porque 68% afirmaram estar ativa sexualmente contra 41% de abstinentes. É importante ressaltar que 63% dessas encontravam-se sem sexo por falta de parceiros, 12% por motivo de doença do parceiro, 10% por falta de desejo, 3% por impotência, 4% devido à secura vaginal e 1% por conta da depressão. “Significa dizer que os desconfortos da menopausa não são motivos suficientes para inibir a mulher de fazer sexo”, ressalta.
Para Tadini, além das transformações comportamentais, outro motivo que contribui para que a mulher faça mais sexo é a ausência da menstruação (que poupa a mesma da preocupação com uma gravidez indesejada) e o auto-conhecimento do corpo e da saúde. “Se ela se sente bem, tem de cinco a 10 vezes mais chances de sentir prazer no sexo”, informa. Além desses dois fatores, há mais um que influencia o comportamento sexual feminino: uma união estável. “A mulher de 45, 50 anos sabe o que quer. Se ela está com o mesmo homem por algum tempo quer dizer que está satisfeita com ele e, por isso, investe na relação”, comenta. Fica claro na tese A Sexualidade no Climatério, no entanto, que as que mais praticam sexo durante a menopausa são as mulheres de nível educacional alto e condição econômica favorável. “Quem não se preocupa com as necessidades básicas diárias tem mais chances de ter um vida sexual prazerosa”, destaca. Os números mostram que 43% das mulheres da classe C e 40% da D e da E têm de uma a quatro relações por mês, contra 16% das pertencentes às classe A e B.