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E o mundo se apagou por FÁTIMA QUINTAS Não sei por onde caminhar. O corredor está escuro, a sala subjaz na penumbra que não escolhi, o breu se propaga pela casa. Não enxergo os retratos na parede, ocultos, tão silenciosos que parecem embaçar a minha ancestralidade. Os livros repousam arrumados na estante. Não consigo sequer tocá-los. Proibiram-me de ler. Proibiram-me de ouvir música. Proibiram-me de escrever. Estou estática, atordoada, inconformada com a própria inércia. A varanda apagada esconde a minha imagem. Ninguém me vê. Os pontos luminosos desapareceram. Restam-me as estrelas a piscar algum indecifrável mistério. Fito o céu, essa imensidão que escapa da mão do homem, preservando-se de possíveis desatinos. Ainda bem que a constelação dos meus desejos não feneceu, mesmo diante das impossibilidades que se levantam à minha frente. De um lado para o outro, há muralhas intransponíveis. Sinto-me emparedada, sem brechas para fugir. Gostaria tanto de evadir-me do temporal da soberba. Não sei para onde ir. E nem a quem procurar. O meu desamparo é completo. Todos se isolam no ermo de um mundo que se apagou. Acendo a vela do castiçal. A pequena chama reproduz a vida. Brinco com o fogo, atravessando rapidamente o dedo no seu calor penetrante. Quando criança, repeti inúmeras vezes a proeza do desafio ao lume. Naquele tempo, o escuro me servia para multiplicar os fantasmas da imaginação. Não os evitei. Com eles convivi em harmonia, como uma crédula apegada ao meu rosário de fé. Cresce em mim o ânimo de rever o que se passava nesse tempo de escuridão. Hei de encontrar a porta de saída. Talvez ela nem esteja fechada, como de costume. Alguém inadvertidamente a abriu. Mas o Brasil escurece no Palácio da Alvorada. Uma contradição cruel para quem confia no significado do amanhecer. Quando despontará a aurora inscrita na sua fachada? A noite se prolonga numa madrugada quase secular. Não posso permitir o ruir das esperanças. Voltarei para trás na tentativa de buscar o que ainda não encontrei. Do que estou eu a falar? Troquei de vestes, exigiram-me que apagasse as luzes, as trevas me cegam. Resistirei, entretanto, até o último lampião aceso. A vela permanece alumiando o ambiente. Sua sombra se alonga na parede a estampar uma miragem difusa. Preciso recobrar o vigor da utopia para saciar o capricho de ser menina. Que diferença faz entre a idade que tenho e a idade que tive? Continuarei insistindo em perguntas sem respostas. A cera se derrete em lágrimas petrificadas. Dói-me acompanhar o pranto da vela. É a única solidariedade que me acode nesse momento escuro. Por isso, valho-me da sua gratuita cumplicidade. Levito acima do bem e do mal, apegada à vontade de afastar-me dos rostos farsantes. Faço questão de ignorar os ruídos políticos que eclodem histrionicamente. Os argumentos me enfastiam, deslizam na roleta da improbidade, celebram o culto do faz de conta. O cenário é postiço e aduba uma realidade perversa que não engana a mais ninguém. Nem mesmo ao velho palhaço, curvo da fadiga de aguardar promessas benfazejas. O cansaço se agiganta, o corpo carrega um peso maior que o suportável, a lassidão atinge o seu clímax. Nego-me a assistir ao iminente naufrágio. Percorro o corredor com o castiçal guiando-me noite adentro. Pouso-o na mesa de cabeceira e espio pudorosamente a vela a chorar por mim. Sopro a chama ardente. Não há sinal de luz; há só escuridão. Reavivo a memória repetindo o verso que decorei no dia em que os trovões apagaram a cidade da infância: Meu avô me deu três barcos:/ um de sonhos quebrados,/ um de sonhos amargos,/ e o de náufragos, náufragos! Fátima Quintas é
escritora. |
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