![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
ENTREVISTA / ÍTALO MORICONI Antologia de poemas também é best-seller por SCHNEIDER CARPEGGIANI Poética, Poema do beco, Vou me embora pra Pasárgada, Belo belo, Pneumotórax (Manuel Bandeira); Filosofia (Ascenso Ferreira); Canção elegíaca (Joaquim Cardozo); Tecendo a manhã, Psicologia da composição, Antíode, Uma faca só lâmina, A educação pela pedra (João Cabral de Melo Neto). Esses são os poemas que representam Pernambuco na coletânea Os 100 Melhores Poemas Brasileiros do Século, organizada pelo poeta e professor do departamento de letras da UFRJ Ítalo Moriconi. O livro foi lançado no rastro do sucesso da coletânea Os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século, pela Editora Objetiva, também organizada por Ítalo em 2000, que se tornou um dos maiores best-sellers do ano passado e acabou por quebrar o tabu de que conto não vende pelo que parece, tudo depende da aparência da embalagem na prateleira. A nova coletânea promete continuar a mesma carreira da anterior, afinal já esgotou sua primeira edição em menos de um mês. Nesta entrevista para o JC, Ítalo fala do seu critério de seleção de poemas, do quanto lhe rende cada compilação e da ausência de autores pernambucanos em atividade na sua compilação.. JORNAL DO COMMERCIO Em menos de um ano, você se envolveu em duas antologias, que catalogaram os 100 melhores contos, e, agora, os 100 melhores poemas brasileiros do século 20. Você se sentiu assustado com tanta responsabilidade em algum momento? ÍTALO MORICONI Sim, eu tinha plena consciência da responsabilidade colocada sobre meus ombros, pois uma antologia, quando dá certo e conquista mercado e público, torna-se importante referencial pedagógico. Mas eu tenho uma maneira bastante lúdica de trabalhar e encarei tudo com muita leveza, pois em arte e literatura impera um certo livre-arbítrio, no caso do crítico. JC - Na primeira antologia, você afirmou que não utilizou critérios acadêmicos para sua realização. E, agora, com os poemas, como é que foi feita a catalogação? Qual foi o critério de catalogação para a primeira coletânea? ÍM Tentei deixar meus critérios bem claros nas introduções que escrevi. Na antologia de poemas foram a importância específica do poema (poemas bons e consagrados entravam a priori), a qualidade de sua exemplaridade dentro de seu gênero específico, a sintonia com o que eu imagino seja o modo de ver contemporâneo. Na antologia de contos, eu tentava escolher contos que me parecessem capazes de mexer com o leitor contemporâneo. Foi também muito importante o fato de que eu deliberadamente me dirigir ao leitor adulto, e não ao leitor infantilizado, que constitui o público de best-sellers. A antologia de contos é um best-seller, que foge às características perniciosas do best-seller mais comum nesta virada de século. Vale dizer: nada tenho contra best-sellers. Orgulho-me muito de ter feito a curadoria desses dois best-sellers, que são minhas duas antologias. JC No Brasil, sempre se comentou que conto não vende livros. No entanto, a primeira coletânea foi um enorme sucesso. Para você, o que fez o livro vender tanto? ÍM A idéia de lançar uma antologia dos cem melhores contos do século justamente no momento em que este século está terminando é simplesmente genial. Acho que existe também uma credibilidade em relação a minha assinatura. As pessoas sabem que eu sou sério e que eu não tenho compromissos de grupo com ninguém. Alem disso, as antologias estão completamente na moda, o grande lance é você, enquanto editor, descobrir que tipo de antologia pode pegar no mercado. No caso dessas antologias minhas, um fato poderoso de atração foi o fato de fornecer ao leitor um exemplar de brasilidade, de nacionalidade. Existe uma sede de identidade nacional, de brasilidade, entre as pessoas que gostam de ler e que querem crescer. Eu senti isso muito em São Paulo, que é o maior mercado de livros do Brasil. As pessoas lá se orgulham de comprar o livro porque elas sabem que ali encontrarão motivos para orgulharem-se de ser brasileiros. Minha antologia de contos dá um retrato do Brasil e minha antologia de poemas dá um retrato da cabeça do brasileiro. E tudo em português brasileiro, essa língua nossa, inculta e bela, pronta para receber a contribuição milionária de todos os erros, como dizia Oswald de Andrade. JC No caso dos poemas, a primeira tiragem da antologia já está esgotada, você acha que, com essas duas suas coletâneas, você derrubou o tabu de que conto e poema não vendem? ÍM Não sei se essa dificuldade está superada. Aliás, pelo menos no caso de poemas, trata-se de mito. Poema vende. Poema de grande poeta vende: Drummond, Adélia Prado, Manoel de Barros, Ferreira Gullar, Ana Cristina César, Paulo Leminski, eis alguns dos poetas brasileiros que vendem e vendem muito bem. O que não vende é poesia de estreante, mas isso em todos os lugares do mundo é assim. JC Em algum momento, você ficou receoso de escutar críticas de que seus trabalho de organizador era puramente comercial e não mereceria uma avaliação mais séria? ÍM Mas eu assumi este trabalho justamente por isso: porque juntava seriedade intelectual com objetividade comercial. Estamos precisando disso no Brasil. Profissionalismo e salário justo não fazem mal a ninguém. JC Financeiramente, as antologias foram boas para você? ÍM Com as antologias, consegui durante um ano e meio substituir a ausência das bolsas de pesquisa que sempre temos na universidade, nós, os professores doutores. Eu estava numa fase ganhando apenas o meu salário base e o trabalho junto ao mercado editorial compensou. Mas comparativamente falando, ainda é mais vantagem para quem trabalha na área de ciências humanas e de letras viver das polpudas bolsas de pesquisa concedidas pelo sistema universitário público do que aventurar-se no mercado. Lembre-se também que eu sou um simples antologista, um curador, e não propriamente um escritor, um autor. Por isso, o que ganhei foi praticamente como curador. O bom dessa história toda é que, apesar disso, a editora Objetiva me propôs um contrato vantajoso e, na verdade, à medida e apenas à medida que as antologias continuem vendendo muitíssimo ao longo dos anos, então terei direito a uma quantia xis periodicamente, girando em torno de 1 a 2 salários mínimos. Não está mal. Admiro muito o profissionalismo da editora Objetiva. JC O fato de você morar no Rio de Janeiro faz com que você esteja mais em sintonia com o trabalho de autores contemporâneos daí? ÍM É possível. Mas lembre-se que o Rio não é o Rio, o Rio é o eixo Sudeste, que engloba São Paulo e Belo Horizonte. |
|