LG_jc.gif (3670 bytes)

CINEMA
Filme não é apenas mercadoria

A concorrida coletiva de imprensa de Apocalypse Now Redux, no 54ª Festival de Cannes, foi prestigiada pelo diretor Francis Ford Coppola, o fotógrafo Vittorio Storaro, o editor Walter Murch, o desenhista de produção Dean Tavoularis e o ator Sam Bottoms. Foi como um encontro de velhos amigos que, juntos, participaram de algo muito importante.

IMPRENSA – Uma obra de arte nunca está finalizada?

FRANCIS FORD COPPOLA – Eu teria que admitir que a grande maioria das obras de arte são, de fato, finalizadas. No caso de Apocalyse Now, trata-se de uma obra de arte cuja composição é tão cheia de possibilidades e pedaços diferentes que foram obrigados a ficar de fora por questões outras. É também um filme que foge completamente desta mentalidade tão atual de que um filme só vale realmente alguma coisa durante o seu primeiro final de semana, quando todo mundo corre para ver qual foi a renda da sexta ao domingo. Um filme não pode nunca ser visto como uma mercadoria desta forma, nem também como um quadro, cuja integridade artística é protegida (aqui na Europa) até mesmo do seu proprietário.

IMPRENSA – Apocalypse Now agora está finalizado?

FFC – Sim, até mesmo num sentido técnico. Quando Walter foi acrescentar o material, nós não usamos um interpositivo, mas cortamos diretamente o negativo original do filme. Isso significa que a matriz original não existe mais daquela primeira forma, mas do jeito que estamos mostrando aqui em Cannes 2001.

IMPRENSA – Mr. Murch, como foi a experiência de voltar para um filme 22 anos depois?

WALTER MURCH - Meu trabalho em Apocalypse Now foi especialmente a primeira parte, até o massacre no barco. A segunda parte do filme foi montada por Richard Marx. Portanto, ao me deparar com a seqüência da plantação francesa, tive a impressão de estar montando um filme novo, que estava sendo filmado por Coppola nas Filipinas, hoje. Na época, eu nem cheguei a pegar nesse material.

IMPRENSA – E como vê a inserção da cena da plantação?

WM - Vejo-a como muito importante e questiona todo tema do imperialismo que já era tão claro no filme, mas não de forma tão nítida. Cria também um paralelo entre os franceses (que colonizaram o Vietnã) e os americanos, que não sabiam muito bem o que exatamente estavam fazendo lá. Os franceses, num diálogo, dizem “mas, nós, pelo menos, moramos aqui. Os americanos explicam a presença deles com um “é o maior nada da história”.

IMPRENSA – O Sr concorda que o filme foi “salvo” por Cannes, em 1979?

FFC – Bem, eu estava numa situação deplorável na primavera de 1979, afundado em dívidas e tendo que agüentar péssima repercussão na imprensa para um filme que ninguém ainda tinha visto. Isso me fez ver em Cannes uma saída muito arriscada para um filme que já estava no buraco. Avisamos que era um trabalho “ainda inacabado” e mostramos o filme, felizmente, deu certo. De Cannes, só tenho boas lembranças, duas Palmas de Ouro, minha esposa. Estar aqui hoje é como uma dessas festas de volta para casa.

IMPRENSA – O que o motivou a lançar esta versão?

FFC – Na época, fiquei muito temeroso de que Apocalypse Now estivesse longo demais, esquisito demais, de que era um filme de guerra sem uma grande batalha final, onde tudo se resolvia. Digo isso porque fui eu quem bancou o filme. Eu perderia a minha casa por causa desse filme... Enfim, havia uma quantidade estupenda de pressão em cima de mim. Filmes, aliás, geralmente são finalizados sob muito estresse, mas creio que, no caso de Apocalypse Now, mais ainda. Desta forma, estruturamos o filme de uma forma que ficasse livre de qualquer distração que o tirasse dos seus trilhos narrativos. Isso implicou no corte de todo esse material que a partir de hoje passa a fazer parte do filme, como um todo. Tenho também que creditar o advento do DVD, que é um formato amigo não apenas dos realizadores, mas também do púbico. O DVD tem revelado muita coisa importante e, inicialmente, pensamos em apenas lançar uma nova versão em DVD, sem a presunção de mostrar o filme no cinema. Minha idéia é que todas essas cenas amplifiquem a mensagem do filme que todos já conheciam. Acho também que as pessoas estão mais preparadas para ver filmes mais longos, as platéias estão mais sofisticadas.

IMPRENSA – Há uma nova cena em que vemos Brando com menos restrições visuais, à luz do dia. É verdade que ele só aparecia de rosto na escuridão porque ele tinha vergonha da própria aparência?

FFC – É verdade, ele deveria estar com a aparência de um coronel das forças especiais e havia me prometido estar em forma, o que não foi o caso. Daí que ele ficou tímido com a coisa toda e eu comecei a procurar meios de utilizar isso e tentar virar o jogo. A solução foi que, ao invés de uma pessoa gorda, Kurtz seria um um homem muito grande e forte, e para isso eu usei um dublê de dois metros de altura, que pode ser visto numa imagem em silhueta. Sobre a inclusão da nova nova imagem, realmente, me senti mais à vontade de mostrar Brando, embora seja uma cena simbólica, onde ele está cercado de crianças.

IMPRENSA – Sua família toda faz cinema. Da sua esposa, que fez O Apocalypse de um Cineasta, a sua filha; Sofia, que fez Virgens Suicidas; ao seu filho, Roman, que está em Cannes com CQ. Como vê isso?

FFC – É uma emoção muito grande poder ver meus filhos fazendo cinema. Na verdade, eu não paro de me impressionar com a quantidade de gente jovem que ama o cinema e que me procura para trocar idéias e aprender. Eu fiquei muito orgulhoso com o filme da Sofia, As Virgens Suicidas, e agora com o filme do Roman, que vocês ainda verão na semana que vem. É um filme muito pessoal, composto por histórias que ele ouviu quando era pequeno, histórias sobre a minha geração de cineastas, que inclui George Lucas, colegas com quem eu passei fome tentando fazer filmes pessoais de horror e ficção científica. O filme do Roman é como uma carta de amor ao cinema escrita por um menino que estava muito próximo de tudo isso.

IMPRENSA – Sofia e Roman aparecem agora na nova versão de Apocalypse Now.

FFC – É algo de muito especial, para mim, poder ver os meninos no filme, na seqüência da plantação francesa. Na época, como era muito complicado pegar permissão para filmar com crianças de fora, e precisávamos de crianças na cena, decidimos pegar os meus filhos, sem maiores preocupações.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 12.05.2001
Sábado