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MEMÓRIA
Mito de Bob Marley persiste 20 anos após sua morte

Cantor jamaicano levou a música das favelas de Kingston às paradas de sucesso, mas seu fervor religioso foi também causa de seu falecimento

POR JOSÉ TELES

O que poderia um garoto pobre fazer em Kingston no final dos anos 50? Ser um “rude boy” (galeras de rua) ou cantor de ritmos regionais (mento, calipso). Robert Nesta Marley, nascido 1945, filho de um capitão inglês com uma jamaicana, escolheu a segunda opção quando adolescente. Em 1962, com 17 anos, ele gravava Judge not, Terror e One cup of cofee. Lançado pelo selo de Leslie Kong, o disco não pegou nas rádios de Kingston, assim como também não deu certo o pseudônimo que o produtor escolheu para o jovem cantor: Bobby Martell.

No ano seguinte, Simmer down era sucesso nacional, interpretada pelos Wailing Wailers, um trio formado por Bob Marley, Neville O’Riley Linvingstone (Bunny Wailer) e Peter McIntosh (Peter Tosh). Sucesso na Jamaica não queria dizer muito coisa em termos financeiros. Em 1966, Marley deixou a banda e foi morar com a mãe em Delaware, nos Estados Unidos, onde trabalhou numa montadora de automóveis.

Na época em que estava nos EUA, aconteceu algo que iria influenciá-lo pelo resto da vida. Em abril de 1966, o Imperador da Etiópia, Haille Selassie fez uma visita oficial à Jamaica (Nesse mesmo mês, Selassie esteve no Recife). Não se levou em conta que o franzino imperador etíope não queria descer do avião com medo da turba, formada rastas que o tinham como um novo profeta, descendente direto do Rei Salomão. O Leão de Judá, profeta preconizado por Marcus Garvey, pioneiro, na Jamaica, na luta pelos direitos da raça negra. O nome de Selassie, anterior à coroação, era Ras Tafari Makonen. A partir dessa visita de Haile Selassie, o rafastarianismo disseminou-se pela Jamaica. Quando Bob Marley voltou ao País, em outubro, converteu-se à contraditória religião e tornou-se um de seus maiores exegetas.

FORTUNA – Bob Marley deixou atrás de si um legado colossal de canções que mudaram não apenas a Jamaica, como também influenciaram a música planeta afora. Deixou também dezenas de pendengas judiciais em torno de sua herança. Como ele não se preocupou em fazer um testamento, por uma fortuna de mais de uma centena de milhões de dólares engalfinham-se até hoje Rita Marley (com quem casou em 1966), as várias mulheres que teve e os filhos que elas lhe deram, além dos ex-companheiros de banda.

Acima de tudo isso paira a obra. Num universo em que os superastros mundiais surgem indefectivelmente nos EUA ou Reino Unido, Bob Marley sobressaiu-se como a primeirA, e até agora a única megaestrela internacional oriunda de uma favela de um País periférico. Adolescente, ele e os amigos sintonizavam as rádios de Orleans. Ao tentar emular Fats Domino, Brook Benton e Drifters, as raízes musicais jamaicanas falaram mais alto. Eles acabaram mesclando o rhythm and blues, o soul, o rock, com o mento, o calipso que, um pouco mais acelerado virou ska, depois rock steady, e por fim, o reggae.

Essa grande música e seu mestre talvez houvessem ficado restrita à Jamaica, como Luíz Gonzaga e o xote ao Brasil, não fosse o carisma e talento superlativos de Bob Marley. Depois de anos de fama e sucesso paroquiais, os Wailers foram contratados pela Island, gravadora de um jamaicano branco, Chris Blackwell. Ele ofereceu aos Wailers todas as condições técnicas e financeiras de que dispunha. Eles corresponderam com um disco que se tornou um clássico imediato: Catch a Fire. O álbum não vendeu muito, mas fez furor entre os músicos americanos, ingleses. A crítica foi unânime: enfim surgia um novo estilo de música pop.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.05.2001
Sábado