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CINEMA II
Cenas emocionantes justificam minutos a mais

Na recente história de ‘versões restauradas’ e ‘versões do diretor’, esta nova cópia de Apocalypse Now apresenta uma das mais radicais experiências em mudanças, aliás, acréscimos, que se tem notícia. São 53 minutos de material que haviam ficado fora da versão original. Esses 53 minutos têm, quase sempre, o efeito de parênteses, comentários que não mudam o significado do filme. ‘Mais’ não significa necessariamente ‘melhor’, embora, pelo menos, uma grande cena traga ao filme algo de político, além de reforçar o seu clima onírico e surreal.

Na categoria ‘parêntese’, a primeira nova seqüência acrescenta um lado insuspeito de humor em Willard e tripulação. Eles roubam uma das pranchas do Coronel surfista que adora o cheiro de Napalm pela manhã, Kilgore (Robert Duvall). A seqüência apenas reforça um absurdo já bem estabelecido pelo filme. Outro ‘parêntese’ é a nova seqüência com as coelhinhas da Playboy, que após deixarem o show às pressas num helicóptero (na versão antiga), terminam oferecendo alívio sexual para a tripulação de Willard (na nova versão).

Ninguém fala nada de realmente importante, mas intensifica-se o clima de surrealismo. A seqüência parece parar o filme para poder ser inserida e é possível entender exatamente o porquê da sua exclusão na época do lançamento.

FANTASMAS - O grande momento desta nova cópia, no entanto, é a parada da tripulação numa plantação francesa, habitada por franceses da Indochina que parecem perdidos no tempo e espaço. Seqüência apresenta mais um ponto alto de fotografia do italiano Vittorio Storaro dentro do filme e sublinha com eloqüência o tema ‘imperialismo/ocupação’, importante num filme sobre americanos no Vietnã. A seqüência é francamente fantasmagórica e inclui ainda um envolvimento sexual de Willard e uma viúva francesa (Aurore Clement). Intensifica ainda o clima geral de surrealismo que guia o filme.

A exibição da nova versão de Apocalypse Now pode ser considerada um sucesso. É um filme que deveria sempre ser visto em telas gigantes e pertence à seleta casta de obras cinematográficas que se encaixam no termo ‘épico’. Seqüências como o ataque de helicópteros à vila de pescadores, além de desencadearem uma sensação de arrepio e emoção inspirada pela mera potência das imagens e do som, deixa também no ar uma sensação que esse é um tipo de filme que não será mais feito, seja pelo toque pessoal, seja pela sua escala.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.05.2001
Sábado