por MARIA EDUARDA ANTUNES
Especial para o JC
Lúdicos, coloridos, criativos. Os brinquedos populares, tão presentes na infância de quem experimentou a liberdade de brincar em quintais e ruas tranqüilas, com o passar do tempo, foram perdendo lugar para as novidades industrializadas que abarrotam as prateleiras dos grandes centros comerciais. Apesar disso, ainda existem artesões e instituições dedicados a perpetuar uma tradição que encanta crianças e adultos.
Quem não lembra o barulho ritmado produzido pelas asas da borboleta de madeira? E as cores vivas do parque de diversões em flandre, com carrosséis e rodas gigantes? As acrobacias do Mané Gostoso, o rodopio do pião, a leveza da pipa empinada ao sabor do vento e tantas outras brincadeiras quase em extinção ainda podem ser apresentadas à nova geração ou revividas por quem está chegando ou já passou dos 30 anos.
À primeira vista, o contato com os artesões parece difícil, pois a maioria não tem um ponto fixo de venda. Além disso, como a dificuldade financeira deles é grande, o contato por telefone nem sempre existe. Entretanto, é possível encontrar esses andarilhos em lugares como mercados públicos, Pátio de São Pedro, Associação dos Artesões do Nordeste - Associarte, feiras de artesanato, praia de Boa Viagem ou mesmo no meio de avenidas.
Esse é o caso de Cláudio Luciano dos Santos, há 10 anos confeccionando carrinhos, ônibus e caminhonetes em flandre. O lugar de exposição combina bem com as criações: o cruzamento da Avenida Norte com a Estrada Velha de Água Fria. Todos os finais de semana, ele e o enteado Ademax da Silva dividem o espaço do semáforo com vendedores de jornais. Ao contrário de outros artesões, esses podem ser considerados um dos raros casos que não reclamam da demanda. Por mês, comercializam cerca de 120 carrinhos que, dependendo do modelo, custam a partir de R$ 5.
Já Antônio José da Silva - Tonho - tem uma visão mais crítica do trabalho. Há 18 anos ele cria mamulengos autênticos, com cabeça e mãos esculpidas em madeira. Morando no interior do Estado, como a maioria dos principais bonequeiros, atende às encomendas dos manipuladores mas, do público em geral, a procura está ficando cada vez menor. No período de um mês, em que poderia produzir até 50 bonecos, os pedidos se restringem a cerca de dez.
Com a sensibilidade de todo grande artista, Tonho não se deixa vencer pelas dificuldades materiais e sonha em ter um teatro para, além de confeccionar, dar vida às próprias criações. Ele também se preocupa com o futuro da atividade, ameaçado pelo impacto da mídia. “Depois do vídeo game, os adolescentes estão esquecendo de si mesmos e perdendo a identidade cultural”, reflete.
Uma iniciativa inédita em Pernambuco, o Teatro Só Riso vai promover, na segunda quinzena deste mês, uma oficina para reciclagem de bonequeiros. O público poderá visitar o espaço para ver mestres como Tonho, Zé Lopes e Zé Divino trabalhando. “ O mamulengo é um brinquedo por excelência, pois promove o desenfrear da imaginação. Além de ser artesanal, é dramático, exigindo a participação do brincante. É um patrimônio imaterial do povo brasileiro”, filosofa Fernando Augusto, diretor do Só Riso.
Reviver experiências infantis também é possível no Museu do Homem do Nordeste. Além de reservar um espaço para a exposição permanente de brinquedos, a instituição desenvolve o projeto Feira-Atividade Brinquedos e Brincadeiras Populares. Nela, crianças e adultos podem não só apreciar e adquirir objetos, como interagir e conhecer a vida de quem atua na área.
No ano passado, o evento sofreu uma pequena modificação, sendo realizado dentro do projeto Artesão no Museu Tem Vez. Segundo a coordenadora de Programas Educativos e Culturais, Sílvia Brasileiro, a instituição está sempre buscando formas de renovar o trabalho. Dentro disso, é feita uma pesquisa de novos nomes e a mostra também pode ser levada a escolas e comunidades que fazem a solicitação. Dessa forma, todos saem ganhando: o artesão, por ter onde escoar a produção sem intermediários, e o público, ao entrar em contato com a riqueza da cultura popular.