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Um microcosmo do supermercado
por FRANCISCO BANDEIRA DE MELLO*
Uma coisa pouco agradável para mim é fazer compras – sobretudo, prosaicamente, as necessárias compras no supermercado. E não apenas porque gastar dinheiro dói, sendo “o bolso a parte mais sensível do corpo humano”. E sim porque, quase sempre, considero perda de tempo – esse escasso insumo vital. (Perda maior, claro, se nos fôssemos dispersar em várias lojas). Porém pode ter um lado lúdico e instrutivo: olhar as pessoas a comprarem, escolhendo perspicazmente ou distraidamente as mercadorias, com o ar criterioso ou estabanado. Com a elegância, difícil de persistir nesses momentos, ou a má educação facilmente demonstrável. É um microcosmo, um mostruário não só de produtos mas de gente. (Às vezes também um pequeno monstruário). E vejo pessoas alinhadas e vejo pessoas relaxadas, derrubando mercadorias – raramente repondo-as nas prateleiras – e nem sempre (a maioria sim) com o ar compenetrado de quem compra. Vejo muitos velhinhos, homens e mulheres, e considero que é um bom exercício para eles – uma boa oportunidade de saírem de casa (uma pausa na monotonia) e de se sentirem e de serem úteis.
Reencontro amigos: contemporâneos de minha adolescência (já fui adolescente) e sinto/vejo o tempo a sucateá-los. O espelho do tempo, cujo reflexo incide imediatamente sobre mim. (É assim que devo estar sendo visto pelos outros, com os ressaibos do tempo imunes a todo tipo de guaribações). Mas é um bom espetáculo. Um cadinho (um bocadinho) de convergências humanas. Vejo fulano, com os seus prováveis 90 anos, numa bela camisa quadriculada, bermudas, alpargatas (alpercatas!) e meias brancas. Vejo fulana, de pele esbranquiçada, nos seus 79 anos, brilhando de bijuterias e de rugas, com seu vestido talar, estampado e esfuziante, a escolher cenouras. (E essa outra figura, senhora das cenouras, que me cumprimentou agora, quem será? E essa outra, com a pele esticada, com o carrinho cheio de biscoitos e bebidas?). Há também muita gente pobre, fazendo um esforço enorme para comprar o seu feijão – e poder comprá-lo, embora o enorme sacrifício, em si mesmo é uma vitória: os filhos terão o que comer.
Bom (ou mau). Há esses que atravancam a passagem enquanto conversam ou escolhem a mercadoria; há o que fura a fila (”tão Brasil!”) procurando levar vantagem em tudo, sem se dar respeito e, sobretudo, sem dar o devido respeito ao próximo; o que prova das uvas (sem lavá-las) ou dos queijos (sem levá-los). E esse que passa assobiando; esse que cheira o bredo; o que, no caixa, deixa a fila esperando, pois interrompeu o pagamento para comprar mais uma ou duas mercadorias etc etc. (E esse que vem aqui só para observar e depois escrever).
Essa, de vestido verde, eu bem ou mal sei que conheço de outros tempos e lugares. Mas de onde? Do bom Colégio Oswaldo Cruz? Das cercanias do Parque 13 de Maio ou do Derby? Moramos em algum momento, eu e ela, na mesma rua ou no mesmo quarteirão? Será a filha de seu Adolfo? A mãe de Etelvina ou de Ranulfo? Trabalhamos algum tempo no mesmo edifício ou na mesma entidade? Integramos a mesma excursão ao Canadá ou à Europa? Será que ela é de Bom Jardim? (Seria indelicadeza, enfrentando o constrangimento da má memória, perguntar o seu nome e não apenas responder ao cumprimento?) Deixa pra lá.
Há os jovens, felizes por estarem ali comprando e aprendendo. Pegando experiência. Há até gente bonita (desculpem a redundância). Há os que compram para si mesmos e os que compram para os outros (cumprindo mandados). Estes últimos, claro, quase sempre menos cuidadosos – pois “quem quer vai, quem não quer manda”... Há os que compram para o mesmo dia ou para a semana ou mês ou para completar a compra anterior (esquecera as batatas ou o arroz). Ou vai dar uma festa ou vai viajar e levar o seu farnel etc. O fato é que todo mundo come. Apesar de todos os progressos, continuamos escravos do estômago – desse prazer ou desprazer (conforme o caso, o descaso e a pessoa).
Para finalizar, mudo um pouco de tom. Economista deve ir ao supermercado, bem como governantes, parlamentares, juízes etc, pois ali é um foco de vida e sem esse aprendizado não serão (nem seremos) nunca satisfatórios conhecedores de um mundo onde temos de atuar – planejando, executando, legislando, julgando etc. (Extrapolo, neste último parágrafo, um comentário/recomendação que ouvi do lúcido empresário João Carlos Paes Mendonça, que admiro pelo seu dinamismo e discrição).
*Francisco Bandeira de Mello, jornalista, é da Academia Pernambucana de Letras
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