Com 50 anos de dedicação à prática de levantamento de copo, o cartunista Jaguar escreve livro repleto de crônicas e boas dicas
por JOSÉ TELES
A primeira coisa que chama atenção em Jaguar de Bar em Bar – Confesso Que Bebi, Memórias de um Amnésico Alcoólico (Editora Record, R$ 20) é o texto enxuto de Jaguar. Cada restaurante, bar, boteco pé-sujo que ele cita é em si uma pequena crônica com deliciosas histórias do Rio de Janeiro. Tem a do bar Capelinha da Gávea, um boteco tão pequeno que Leila Diniz, que sempre dava uma parada por lá, antes de ir gravar novela na Globo, um dia exclamou: “Porra, quando a gente bebe aqui fica com a bunda de fora”. A frase pegou e o dono, um português, mudou o nome para ‘Bunda de Fora’. Em plena ditadura, uma tal censura estética exigiu que o portuga mudasse o nome do estabelecimento. Ele colocou ‘B. de Fora’. Proibiram mais uma vez, e o boteco passou vários anos chamando-se ‘de Fora’.
Jaguar mapeia desde os mais refinados bares da Zona Sul carioca, até os pés-sujos da Zona Norte. Pontilha o livro de dicas preciosas para quem vai ao Rio e perde tempo e dinheiro em bar pega-turista. “O Bip Bip é o único bar sem fins lucrativos”, assim começa o texto sobre um dos mais simpáticos botecos do Brasil, onde “quem chega desavisado pensa que é um bar-fantasma”.
O Bip Bip não tem balcão, deve ser o único bar self-service nacional. Cada freguês vai lá no fundo, apanha sua cerveja no freezer, anota numa cadernetinha e paga ao sair. No Bip Bip rolam memoráveis rodas-de- samba com Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Miúcha e Beth Carvalho, freqüentadores contumazes do boteco, que fica em Copacabana.
Ao longo das 157 páginas do livro, Jaguar vai citando os bares e suas principais qualidades, tanto as líquidas quanto as sólidas. Não apenas os bares, mas ilustres freqüentadores, que com o autor já tomaram incontáveis porres com o trio steinhegger, chope e um underberger para rebater, uma mistura para profissionais de escola.
O livro talvez tire a paz do Arataca, um botequim, localizado dentro da Cobal, no Leblon, que conta, nos sábados de manhã, com a maior quantidade de celebridades por metro quadrado já vista em qualquer congênere. Bebem lá Jaguar, Chico Buarque, Chico Caruso, Antonio Pedro, Jards Macalé, José Lewgoy e Abel Silva, que cunhou a frase, hoje num quadro no Arataca, “O bar é o descanso do lar”.
O livro de Jaguar é como o precioso líquido, só escutar falar nele não leva a nada, é preciso prová-lo. Ah, sim, Jaguar faz uma revelação surpreendente, o melhor chope do Brasil não é o do afamado Bar Luiz, na rua da Carioca, no centro do Rio, e sim o do Bar Léo, em São Paulo. E em questão de amnésia, os abstêmios saem perdendo nesse livro. Enquanto Jaguar, com mais de 50 anos de birita mostra uma prodigiosa memória para detalhes de cada bar que cita, o prefaciador do livro, jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, que não bebe, na apresentação escreveu: “Aos meus olhinhos infantis, feito os olhos do bandido no bolero de Chico”. Os tais olhos do bandido nem são de um bolero, nem de Chico, mas de uma balada, Esse Cara, composta por Caetano Veloso.
Confesso Que Bebi é leitura obrigatória tanto para quem entorna quanto para abstêmios. Os primeiros aprendem a não ir no bar errado, os segundos ficam sabendo o que estão perdendo.