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CARTUNISTA II
“Beber mal é acidente de percurso”

por JOSÉ TELES

No tempo em que ainda se chamava Sérgio Jaguaribe, o cartunista, cronista e bebedor profissional Jaguar foi, quem diria, bancário do Banco do Brasil. Quis pedir demissão na primeira semana no emprego. Não pediu porque um rapaz que trabalhava no mesmo departamento, aconselhou-o a esfriar a cabeça: o emprego era seguro, pagava bem e nem se trabalhava tanto. Para complementar o conselho, carregou o confuso Jaguaribe para um boteco próximo, onde ele se conteve com uns uisquinhos, o bastante para se elevar ao estado Humphrey Bogart; ou seja, duas doses acima do resto da humanidade.

O conselheiro de Jaguar chamava-se Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta para os íntimos. Sérgio Jaguaribe passou ainda algum tempo no banco, mas o Jaguar acabou dominando. O ex-bancário tornou-se um dos melhores humoristas do País, e reconhecidamente, um dos maiores copos da nação. Parte dessa sua experiência nos bares da vida ele repassa, a quem interessar possa, no livro Jaguar de Bar em Bar Confesso Que Bebi, Memórias de um Amnésico Alcoólico (Editora Record). O livro é uma espécie de roteiro etílico sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Jaguar, concedeu essa entrevista, por telefone, do apartamento dele no Leblon. A fera havia acabado de acordar, havia tomado um porre na noite anterior, mas às dez e meia da matina já estava inteiro e de bom humor para falar sobre o livro, que vem lançar no Recife.

JORNAL DO COMMERCIO – Teu livro deveria ter o nome Confesso Que Continuo Bebendo, né, porque pelo visto você não pára tão cedo.

JAGUAR Pois é, confesso que continuo bebendo. O pessoal do Casseta & Planeta fez um quadro comigo no Fantástico, que nem vi, porque não vejo TV. Me levaram para uma academia de ginástica e me fizeram malhar por uma hora e meia. Fiz tudo: corri, fiz bicicleta, esteira, musculação, no final tava inteiro. Aí falei para Hubert e Marcelo Madureira: “Queria agora que esses caras malhados aí competissem comigo no meu esporte, o levantamento de copos”.

JC – Tem aquela história, a primeira a gente nunca esquece. Você lembra do seu primeiro porre?

JAGUARNão lembro nem do último, quando mais do primeiro. Aliás eu comecei a beber tarde, na época em que servia o Exército, desde então tenho corrido atrás pra recuperar o tempo perdido.

JC – Seu livro também poderia ser intitulado Confesso Que Comi, porque você escreve o tempo inteiro sobre petiscos e pratos de cada bar.

JAGUARComer é fundamental pra quem bebe. Vários amigos meus já morreram porque não seguiram essa regra básica. Mas outro dia me perguntaram qual era meu tiragosto predileto, eu respondi testículos de peru, que é servido num bar japonês lá na Liberdade, em São Paulo. Aí disseram que era uma comida exótica. Respondi que exótico seria clitóris de perua.

JC – Você sempre disse que não gosta de dar endereços de bares e botecos legais para que eles não sejam invadidos por amadores. No seu livro você entrega todos os bares que cita, não acha isso meio perigoso para o bem-estar dos profissionais?

JAGUAROlha o negócio de bar tem que ter amador mesmo. Eu, pelo menos, só conheço uns cinco profissionais. Fausto Wolff e Chico Caruso são dois profissionais. Fausto ganha de mim pela cubagem maior, o sujeito tem dois metros de altura.

JC – Tem uma história antológica dele, né? uma participação numa corrida etílica, ou coisa parecida, em que você era um dos jurados.

JAGUAR É, essa história eu não coloquei no meu livro. Foi uma maratona, que a Brahma inventou. Os participantes iam do Jardim de Alah até a praça General Osório, parando em determinados bares, em que havia fiscais anotando o que bebiam, ganhava quem tomasse mais chopes até o ponto de chegada. Eu apostei no Fausto Wolff e ele já me chega de porre. Fui reclamar e ele: “Calma, eu tinha que fazer o esquente”. Fausto tomou uns 40, 50, chopes, não lembro mais, e tirou em segundo lugar. O vencedor foi um crioulo, mas na hora de receber ele caiu no choro, disse que não merecia o prêmio, revelando que não era um, e sim dois negões. O cara contou que correu com outro cara muito parecido com ele. Então depois que saíam de um bar, trocavam de camisa, e foram revezando-se até o final da maratona.

JC – Pra você, o que é pior: não beber, ou beber mal?

JAGUARNão beber é pior do que qualquer outra coisa. Beber mal é acidente de percurso.

JC – Você consegue passar quanto tempo sem beber?

JAGUAR Passei essa semana um dia inteiro sem beber, porque tinha que fazer exames pra renovar a carteira no Detran. Mas ontem bebi bem, com Fausto Wolff, no Bracarense, um bar perto aqui de onde moro. Não me pergunte quantas bebemos, a gente bebe porque gosta não pra entrar no livro dos recordes.

JC – No seu livro você cita apenas bares do Rio e São Paulo. Você citaria algum bar do Recife?

JAGUARNo livro esqueci até bares que costumo freqüentar, feito o Show Bis, que tem a melhor empadinha do Rio, o dono ficou fulo comigo. No Recife eu vou aos bares sempre levado por amigos, e vou neles geralmente uma única vez, então não dá pra citá-los. Da próxima vez em que for à cidade, vou levar minha caderneta de anotações.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo