Meribérica lança no Brasil uma das histórias clássicas sobre o personagem italianíssimo do grafista italiano Hugo Pratt, falecido há seis anos
por CAROL ALMEIDA
O ar tem um cheiro forte de cigarrilhas e mofo. Um odor carregado de histórias. O ambiente tem uma granulação de segredos, aos poucos, iluminados pelo sol que entra cuidadoso pelas frestas da janela. E é então nesse momento que a calmaria anuncia a tempestade. É um enredo que de tão palpável e sensitivo, parece ser projetado em quatro dimensões. No entanto, trata-se ‘apenas’ de uma novela gráfica (ou quadrinhos) projetada para ser tudo, menos bidimensional como o papel onde é impressa. Seu protagonista é o marinheiro mais bon-vivant de todos os tempos, Corto Maltese, recém-editado pela Meribérica em um de suas viagens clássicas: Corto Maltese na Sibéria, uma das obras-primas do italiano Hugo Pratt.
O glamour que cerca o personagem título vem não somente de suas suíças simétricas, das amizades proibidas, da pose de herói, mas principalmente do fato de nunca se saber quem realmente é Corto Maltese. Sentando em seu confortável recinto, às margens das águas venezianas, o altivo marujo sugere que seria bom reviver uma fábula. Como se isso não batesse à sua porta de instante em instante. É a deixa para que comecem as longas viagens, brigas e inevitáveis encontros com mulheres que, quase sempre, o deixam mais perturbados que o fuzil de um rigoroso general. É o velho clichê do amante italiano que, nesse caso, funciona como nunca.
Corto Maltese é um homem de traços fortes, em todos os sentidos da palavra. Desenhado por Hugo Pratt com uma economia de linhas e sobra de precisão em roteiros elaborados, ele é hoje uma das figuras mais representativas do quadrinho europeu. E quando se fala “quadrinho europeu” no Brasil, há uma equivalência em comparar a expressão à repercussão, por exemplo, do “cinema europeu” no País dos Multiplex. Pois sim, no universo da Marvel e da DC Comics, Corto Maltese é uma preciosidade estilística das terras d’além-mar. Seu autor já morou e visitou inúmeras latitudes do planeta e, com seu conhecimento geográfico e histórico, terminou por criar um personagem de uma identidade tão unicamente cosmopolita e profundamente italiana.
Em Corto Maltese na Sibéria, Pratt mais uma vez recorre aos eventos históricos para pontuar as desventuras de seu herói que, segundo alguns teóricos, nada mais é que um alter-ego do autor. Dessa vez, Corto encontra-se com um inusitado personagem da Revolução Russa esquecido por boa parte dos livros responsáveis pela memória das guerras. O General-Barão Roman von Ungern-Sternberg, um homem que lutou contra os bolcheviques por uma nação na inóspita e gelada Sibéria. Os fatos reais confundem-se com a ficção, deixando sempre a dúvida do que foi, ou não, baseado em fatos que realmente ocorreram.
Essa é mais uma das investidas da Meribérica no trabalho de Hugo Pratt. A editora lusa já publicou várias aventuras de Corto Maltese e também já lançou no mercado outras histórias do grafista italiano (Os Escorpiões do Deserto e Morgan, por exemplo) e, recentemente, editou também As Helvéticas, história em que Corto tem um inusitado encontro com Sandman (isso mesmo!, O Senhor dos Sonhos, de Neil Gaiman).
E por falar em luso, Corto Maltese na Sibéria é transcrito em português de Portugal. Portanto, não é de se espantar o encontro de mesóclises e nomes como Leline, no lugar de Lenin. O livro (uma preciosidade de edição, com introdução bastante didática e rica sobre as personagens da história) custa R$ 55.