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VOCAÇÃO
Vida religiosa ainda atrai jovens

É preciso ser livre para fazer os votos de pobreza (o bastante para escutar e perdoar), castidade (não possuir nem se deixar possuir de qualquer forma que seja) e obediência

por NARA LÚCIA

Agosto é o mês das vocações na Igreja Católica. Cada cristão é chamado a fazer algo pelos irmãos e a proclamar o Evangelho. Ser leigo (cristão casado ou solteiro com a missão de evangelizar) é a vocação da maioria das pessoas. No terceiro milênio do nascimento de Cristo e chegada no século 21, a vocação para a vida religiosa também continua forte. Muitos jovens ainda querem unicamente seguir os passos de Jesus, anunciando sua palavra.

Para isso é preciso ser livre para fazer os votos de pobreza (o bastante para escutar e perdoar), castidade (não possuir nem se deixar possuir de qualquer forma que seja) e obediência (toda a vida do religioso deve estar marcada por essa atitude). Fácil para quem tem vocação.

Que o diga a priora (superiora) do Carmelo da Imaculda Conceição, em Camaragibe, irmã Celina da Santa Face, 50 anos – Santa Face foi acrescentando ao nome de batismo porque ela sempre gostou de contemplar o rosto de Jesus. A priora e 20 monjas (o carmelo tem capacidade para 21 religiosas) levam uma vida contemplativa (reclusão, oração e trabalho) e se sentem plenamente realizadas.

“Sou a pessoa mais feliz do mundo. Nunca me arrependi da escolha que fiz”, assegura. A vocação foi despertada aos 13, quando se internou para curar uma anemia profunda. Encantou-se pelo trabalho realizado por uma freira, de dedicação total ao próximo, no hospital onde estava. De volta ao colégio interno, em Alagoas, observava as freiras e dizia: “Deus está querendo que eu seja religiosa.”

Quando revelou o desejo de ser freira, Celina Maria da Silva encontrou forte resistência do pai. “Não me considere seu pai se fizer uma loucura dessa”, esbravejou. “Não se preocupe, faça o que Deus está lhe pedindo”, acalmou a mãe. Aos 18 ingressou no carmelo de Camaragibe. Antes de partir seu pai saiu de casa. “Chorei muito, mas minha mãe me tranqüilizou garantindo que depois ele voltaria.” E voltou mesmo. Mas Celina já tinha viajado.

A vida contemplativa (as monjas só aparecem em público nas missas diárias, às 7h, no carmelo) é de total ocupação com Deus. “Há mais possibilidade de se ficar recolhida para rezar”, diz irmã Celina, justificando a escolha pelo carmelo.

Para onde foi, aos 22, Nyldes Moreira Rodrigues, hoje com 60. Irmã Tereza de Jesus, como passou a se chamar, também desgostou o pai quando revelou, aos 14, o desejo de ser freira. Ele queria que a filha estudasse, se formasse. Para fazer o enxoval que levaria ao carmelo, ela teve que trabalhar. Perto da partida, seu pai lhe perguntou: “Como vai ser quando eu lhe chamar e você não estiver aqui para responder?” Não adiantou a pressão. Nyldes deixou a família e seguiu a vocação. “Sou plenamente realizada. Mais é impossível”, afirma.

As carmelitas descalças, como são conhecidas (num tempo remoto elas usavam calçados rústicos que mal cobriam os pés), acordam às 4h30 e meia hora depois já estão pontas para a primeira oração do dia. Ate as 21h, quando se recolhem para dormir, rezam várias vezes. Trabalham de manhã (fazem pergaminhos, licores e hóstias) e recreiam do meio-dia às 13h e das 19h às 20h. Nessas horas cantam, tocam vilão e teclado, ouvem música.

Apesar de não serem mais proibidas de ler jornais e revistas, ver televisão e ouvir rádio, as monjas evitam o contato com o mundo fora do carmelo. As visitas dos parentes, no locutório (sala separada por grades) são permitidas diariamente. As saídas do carmelo só em casos de muita necessidade, como a ida ao médico ou a visita a parentes. Houve um tempo em que nem a morte do pai, da mãe ou de um irmão conseguia retirar da clausura uma carmelita descalça.

No momento, cinco noviças e duas postulantes (não dão entrevistas porque estão em formação) preparam-se para assumir o compromisso de se integrar na comunidade. O ingresso no carmelo se dá pelo postulantado (fase de discernimento), a partir dos 18 anos e da conclusão do ensino médio. Seguem-se dois anos de noviciado (preparação para a vida religiosa) e três anos dos primeiros votos (período de aprofundamento). Depois são feitos os votos solenes, quando a jovem passa a ser chamada de irmã.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo