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POLÊMICA
Reforma agrária dificulta expansão de Barreiros

Prefeitura e Câmara condenam divisão das terras, porque impede a criação de um pólo industrial na região

Considerada a maior ação da reforma agrária da história de Pernambuco, a desapropriação dos 12.248 hectares da Usina Central Barreiros, no Litoral Sul do Estado, enfrenta a resistência dos poderes Executivo e Legislativo do município, distante 120 quilômetros do Recife. Enquanto o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) comemora a regulamentação da divisão de 22 engenhos da antiga propriedade, depois de dois anos de luta contra a burocracia, a prefeitura e a Câmara de Vereadores da cidade condenam a repartição das terras da antiga empresa, falida em 1998.

Hoje, o Incra faz planos para recuperar a região, injetando quase R$ 20 milhões na economia, a ser movimentada a partir de outubro deste ano com assentamento das primeiras 1.200 famílias. Contemplados depois de três anos de luta pela posse das terras, os movimentos sociais decretaram o encerramento do ciclo da monocultura canavieira e dos grandes latifúndios na região. Já os políticos, sob pressão dos fornecedores de cana, alegam que o processo inviabiliza a criação de um parque industrial e compromete a expansão territorial.

A polêmica em torno da Usina Central Barreiros começou em abril deste ano. Nesse mês, o Incra publicou no Diário Oficial da União o decreto de desapropriação do primeiro lote de terras da usina com 4.936 hectares de cinco áreas. Justamente uma delas, o Engenho Baeté, localizado nas proximidades do centro de Barreiros, se transformou em um dos maiores motivos da disputa. No local, os vereadores da bancada da situação pretendiam criar um pólo industrial.

A idéia era atrair empresas para se instalar numa área de 150 hectares, concedendo isenções fiscais e outros atrativos financeiros para os empresários. O projeto foi aprovado pela câmara e tramita na prefeitura. “Barreiros precisa de empregos e de fábricas para poder crescer. O Incra desapropriou áreas produtivas e geradoras de postos de trabalho”, reclamou o vereador Marcelo Carvalho (PFL), um dos integrantes do grupo do prefeito João Baleia (PMDB).

As críticas do Legislativo ganharam força na administração local. “Com essa desapropriação ficamos oprimidos e não temos como crescer. O Incra tem que pensar no equilíbrio regional e, para não comprometer a região, deveria desapropriar só cinco engenhos e ver se a reforma agrária daria certo”, afirmou o secretário de Planejamento de Barreiros, Marcelo Guimarães. O vice-prefeito do município, Cleto Gilberto, é ainda mais pessimista. “Com esse povo todo sendo assentado na região, vão faltar condições para atendimento médico e de educação, que terminam sempre estourando na prefeitura”, criticou.

Em meio ao conflito de interesses, o Incra deu continuidade ao processo. No dia 10 de maio, disponibilizou para a reforma agrária 5.185 hectares de 10 propriedades. O decerto do terceiro e último lote saiu no dia 20 de julho, contemplando sete engenhos e 3.030 hectares. “A reforma agrária é a única maneira de mudar a face econômica daquela região. Estamos planejando investir uma média de R$ 15.900 por cada família assentada com créditos de habitação, fomento e infra-estrutura. Nenhuma empresa investiria tanto em tão pouco tempo numa só área. E o que é melhor, sem contrapartida nenhuma”, ressalta o superintendente do Incra, Geraldo Eugênio.

A repartição das terras da usina mereceu elogios rasgados do secretário de Planejamento do Estado, José Arlindo Soares. Também se transformou em um dos principais assuntos em discussão de parte do Litoral Sul. Além de Barreiros, o território da antiga empresa abrange parte dos municípios de São José da Coroa Grande e Maragogi, em Alagoas.

Diante da polêmica, a Escola Agrotécnica Federal, sediada em Barreiros, promoverá no próximo mês um ciclo de debates sobre a reforma agrária. “A cultura do latifúndio é ainda é muito forte na região. Convidaremos o Incra, o MST e também quem é contra a desapropriação para discutirmos o que é melhor para a população”, comentou a diretora de ensino da escola, Karla Reis.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo