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CURTO E GROSSO
José Teles

Uma reavaliação do Bonde do Tigrão

Assim como aquele ditado cretino, que diz que não há mulher feia, o cara é que bebeu pouco, tampouco existe arte ruim. Falta-lhe apenas uma teoria que justifique. Isso não tem nada de original, Tom Wolfe já escreveu sobre o assunto em The Painted World. Pois é, minha senhora, com uma teoria jóia até a letra de Moranguinho do Nordeste acabaria sendo estudada em universidades. Eis uma teoria jóia que esbocei sobre o Bonde do Tigrão.

Os rapazes do Bonde do Tigrão, que doravante tratarei por BT, não são, como querem a crítica, pequenos-burgueses de formação anglo-americana, uma jogada dos marketeiros para forjar uma nova tendência que substitua o axé e o pagode, ambos em franca decadência. Muito menos se trata de uma trama articulada por Fernandinho Beira-Mar com o intuito de solapar e apoucar a moral das classes C e B para que, destituídas de um escudo ético, essas abram a guarda para o consumo das drogas. Com efeito, o funk do Bonde do Tigrão transcende a todo esse debate tautológico, em que é palpável um ranço de racismo e preconceito em relação a esses moços saídos dos morros e arrabaldes.

As origens da música do BT remontam ao Quilombo de Zumbi. Em Palmares, os africanos recriaram a pátria perdida. O samba no pé, os passos de Toni Tornado, a trivela, o Black Rio, e o funk do BT têm raízes fincadas na Serra da Barriga. Portanto, o funk do BT é a linha evolutiva do som que Zumbi e os quilombolas mandavam ver nos Palmares. Foi nesse Quilombo que surgiu a palavra popozudas um termo carinhosos para designar as moças de bagageiros calipígios. “Quer dançar quer dançar? O Zumbi vai te ensinar”, Margareth Mead, em um ensaio pouco difundido, porque escrito num dialeto arcaico da Botswana, atribui esse refrão ao herói negro, que o cantava de mãos dadas com os quilombolas. Isso inclusive foi o que levou um grupo gay da Bahia a espalhar que Zumbi era um enrustido, que só não saiu do armário porque nos Palmares não existiam armários. Os versos atravessaram os séculos. Passaram por Pixinguinha, por Cartola, esbarraram em Tim Maia, embalaram Gerson King Combo, e fizeram Zuleide virar Lady Zu. Mais adiante trombaram com o Furacão 2000, quase pegam Tiririca, e findaram reciclados pelo pessoal do BT, que o utilizou para suas mensagens humanísticas. Humanísticas, sim.

O brado de guerra “só as popozudas, as preparadas, as cachorras”, não destila em seu bojo nenhum apelo sexista, como querem dar a entender feministas mal-esclarecidas. Na verdade, o BT está proporcionando uma integração das mulheres em todos os níveis: feias, bonitas, e banda voou. Uma mensagem inversamente proporcional àquela do Casseta & Planeta, “Mamãe é mãe/ Paca é paca/ Mulher não/ Mulher é tudo vaca”, que não foi alvo de nenhum manifestação repressiva por ter vindo de brancos, universitários, e da Globo. Aliás, os Cassetas são tão Wasps, que o único preto do grupo tem olhos verdes.

Enfim, o funk do BT é uma arte ecumênica, em que não há pecado nem perdão, a filosofia do novo milênio como práxis. Para encerrar esta análise, nada melhor do que transcrever o eternamente lúcido H. Heine: “There's something marvelous in music. I might almost say it is a marvel. Its position is somewhere beteween the region of thought and that of phenoma: a glimmering medium between mind and matter, related to both and yet differing from either. Spiritual, and yet requiring rhthym; material and yet independent of space". Em suma, o grande sábio quis dizer: “Então martela, martela, o martelão”.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo