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ENTREVISTA/Roger Abdelmassih
“Clonar humanos é uma aberração”

O anúncio de que a clonagem humana já tem data definida – os experimentos começam em novembro com 200 casais estéreis – provocou um verdadeiro rebuliço no mundo inteiro. Muitos médicos e cientistas consideram o projeto do ginecologista italiano Severino Antinori bastante precipitado, já que, na opinião deles, a experiência de clonagem com animais vem se mostrando ineficaz. “Eu acho uma aberração nesse momento”, diz, taxativo, o médico Roger Abdelmassih, 58 anos, especialista em Urologia e Andrologia pela Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-diretor da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. Ele esteve no Recife, na última quarta-feira, para dar uma palestra sobre os avanços em medicina reprodutiva. Amigo pessoal de Antinori, Abdelmassih foi convidado pelo italiano para ocupar a vice-presidência da Associação de Clínicas Privadas em Reprodução Assistida, uma entidade internacional a ser criada nos próximos meses, em Roma, na Itália. Na entrevista concedida ao repórter Marcelo Robalinho, Roger Abdelmassih, que é responsável pelo nascimento de um terço dos bebês de proveta no Brasil, comentou os sérios motivos que o levam a discordar da clonagem em humanos. Falta de eficiência da técnica foi o principal argumento. Falou ainda da pesquisa de criação de óvulos em laboratório, que vem sendo desenvolvida por ele em São Paulo.

JORNAL DO COMMERCIO – Na última terça-feira, o professor italiano Severino Antinori anunciou que vai iniciar as primeiras tentativas de clonagem de seres humano, em novembro, por meio de um consórcio internacional privado de 20 cientistas. O que o senhor acha disso?

ROGER ABDELMASSIHAcho uma aberração, nesse momento, clonar humanos sem antes fazer uma maior verificação de eficiência da técnica. A técnica não é eficiente se eu obtenho apenas um resultado positivo em 200, 300 casos. Agora, a eficiência pode ser muito mais avaliada com animais do que com humanos. Nós não sabemos o que pode acontecer com o ser nascido por essa tecnologia. Tanto pode não ter nada, como ter graves problemas. Não temos que correr esse risco porque estamos lidando com seres humanos. Eu tenho, primeiro, de avaliar esses animais e ver o índice de eficiência com os clones nascidos. Com isso, eu terei uma proteção absoluta para depois poder aplicar essa tecnologia com humanos.

JC – Quanto é a taxa de eficiência de uma clonagem?

ABDELMASSIHMuito baixa. Menos de 1%.

JC – Então, dos 200 casais que o professor Antinori diz que vai experimentar a clonagem, quantos clones o senhor acha que ele conseguirá?

ABDELMASSIHUm ou dois, se é que vai ter sucesso com a experiência. Entretanto, esses clones podem apresentar problemas de malformações. Não sabemos. Esse problema é preocupante. Pode até conseguir uma eficiência aparente, mas sem uma segurança da estrutura daquela criança que virá ao mundo.

JC – Como está a ovelha Dolly (o primeiro clone de um mamífero adulto) hoje, cerca de cinco anos após seu nascimento?

ABDELMASSIHEla está bem. Entretanto, começa-se a observar que Dolly está tendo um envelhecimento mais precoce do que ovelhas normais nascidas na mesma época.

JC – Esse problema poderia ter sido provocado pela falta de eficiência da técnica?

ABDELMASSIHProvavelmente, sim. Os cromossomos de Dolly (estruturas que contêm toda a informação necessária para a construção e o funcionamento do corpo) tiveram uma diminuição de uma das suas partes, o talômero. As pontas dele têm se mostrado menores, o que demonstra uma redução na possibilidade de vida, que é característica dessa alteração.

JC – Isso não poderia indicar que a clonagem precisa ser melhor estudada até poder ser aplicada em humanos, ao contrário do que o professor Antinori propõe?

ABDELMASSIHSem dúvida. Essa é uma das razões. A força do Antinori ou a vontade dele é indiscutível, tem valores. Agora, ele tem que ter um pouco mais de cuidado porque há limitações sociais, éticas, morais etc. Parece que ele está se esquecendo disso.

JC – Segundo ele declarou, “a clonagem seria a última fronteira que daria ao ser humano estéril a possibilidade de transmitir seus genes”. O senhor concorda com isso?

ABDELMASSIHExistem pesquisas não só na área de reprodução humana como da própria genética associada que podem resolver o problema do casal sem filhos sem ter que chegar à clonagem, como a criação de óvulos e espermatozóides por técnicas até bem próximas da clonagem. Acho que a clonagem poderá até ser discutida no futuro. Não descarto a possibilidade do uso eventual desta técnica na reprodução humana. Mas não de uma forma abrupta. Nós temos primeiro que ter a tecnologia dominada, com eficiência e avaliação dos resultados com animais. A discussão de se aplicar o clone humano em determinada circunstância é uma outra história, que vai ser discutida no futuro. Hoje eu sou absolutamente favorável a criar um clone humano e, desse embrião, se desenvolver células-tronco em meios de cultura para substituir a ação de um órgão numa pessoa que poderá morrer por ausência ou pela falência desse órgão. Mas essa história de células-tronco não está efetivamente dominada.

JC – Na sua opinião, até que ponto os cientistas têm o direito de aplicar a clonagem em seres humanos sabendo da posição contrária de vários governos? Seria ético?

ABDELMASSIHO problema da ação ética depende de cada país onde se discute o assunto. Nesse caso específico do Antinori, eu entendo que seja uma aberração. Vamos admitir, por outro lado, que eu tivesse a absoluta certeza, por vários estudos de nascimentos de vários animais, que eles fossem absolutamente normais, que o nível de malformação fossem dentro das expectativas naturais e que a eficiência da tecnologia fosse bastante boa. Hoje, eu estaria, talvez, aceitando corrigir ou dando condições de uma solução para um casal que não tenha espermatozóides ou óvulo. Mas nós teríamos que discutir do ponto-de-vista ético, saber se a sociedade aceita isso. Mas ainda não houve discussão ética sobre o assunto. E quando não há resultados, o que nós vamos discutir? Fantasia? Expectativas fantasiosas? Então, eu acho que não deve se fazer a clonagem dessa forma.

JC – Daqui a quanto tempo, o senhor acredita que a clonagem poderá ser aplicada em seres humanos?

ABDELMASSIHSe essas técnicas evoluírem bem, talvez de um a dois anos, nós tenhamos conseguido bons resultados com animais. Aí, teremos que esperar mais dois, três anos para ver o que aconteceu com eles. Então, dentro de quatro a cinco anos, se tudo continuar evoluindo bem com os animais, nós possamos pensar em aplicar em humanos.

JC – Mas muitos médicos mencionam que a clonagem traz risco de mortalidade ou de má-formação de órgãos, anomalias cardíacas e deficiência imunológica. Nesse sentido, a clonagem não seria perigosa?

ABDELMASSIHExistem essas alterações, mas é preciso ver tecnicamente o que fazer nessa transferência de núcleo entre células para haver um melhor resultado. A pesquisa com animais tem de continuar para o bem da humanidade. Há uma técnica fantástica que todo mundo usa hoje, chamada ICSI (consiste na injeção do espermatozóide dentro do óvulo por meio de uma microagulha para fecundação), que foi a salvação da fertilização in vitro. Uma técnica trazida para o Brasil em 1993. Mas as pesquisas começaram em 1985 e só entre 91 e 92 conseguiu-se o primeiro resultado positivo. A fertilização in vitro foi tentada por 200 e tantas vezes até se conseguir o primeiro bebê de proveta. E foi uma revolução na época. Antinori, provavelmente, está tentando repetir, plagiando o que aconteceu na fertilização em 1978. A questão é que ali você não corria o risco de desestruturação genética. E hoje existe esse risco.

JC – As técnicas que existem hoje na área de reprodução humana seriam capazes de detectar anomalias nesses embriões, caso a clonagem fosse realizada?

ABDELMASSIHSem sombra de dúvida. Temos plenas condições de avaliação estrutural e genética.

JC – Sua clínica, em São Paulo, está desenvolvendo a criação de óvulos em laboratório a partir da transferência do núcleo de células de vacas. Como está o andamento das pesquisas?

ABDELMASSIHTivemos alguns casos de gestações nos animais, mas sem chegar ao nascimento devido a abortos. Faremos convênio com um centro de estudos de clonagem animal de uma universidade norte-americana para completar as nossas pesquisas.

JC – Como é a pesquisa?

ABDELMASSIHConsiste na substituição do núcleo do óvulo de uma mulher doadora pelo material genético de uma célula não-sexual, que tem 46 cromossomos, de uma paciente que não produz óvulos. Depois de formado, esse novo núcleo é dividido em dois, com 23 cromossomos, que representa um óvulo perfeito. Essa experiência começou há dois anos com o óvulo de uma mulher. Ele foi fecundado pelo processo da fertilização in vitro. Por questões éticas, o embrião foi congelado, pois ainda precisamos avaliar como a reprodução celular se processará antes de transferi-lo para o útero de uma paciente. No momento, estamos fazendo essa pesquisa com as vacas para verificar o desenvolvimento da técnica.

JC – O processo é parecido com o da clonagem, não é?

ABDELMASSIHO processo é muito similar até um determinado momento porque chega uma hora em que você tira metade do núcleo que formou o óvulo. Se você deixasse aquela metade, formaria um clone.

JC – O senhor pensa em continuar o processo e fazer clonagem?

ABDELMASSIHNão temos o interesse de clonagem neste momento. O objetivo é fazer esse trabalho e resolver o problema das mulheres que não tenham mais óvulos.

JC – Mas quais seriam as perspectivas da clonagem humana aqui no País?

ABDELMASSIHA clonagem animal já está sendo tentada, mas ainda sem eficiência. Já a humana não tem sentido.

JC – Qual a sua opinião sobre as leis que regulam a clonagem humana no mundo.

ABDELMASSIHHá leis que limitam determinados tipos de manuseios que vão inviabilizar a aplicação da técnica. Os norte-americanos têm uma legislação que autoriza a mexer no embrião, tirá-lo para fazer pesquisa, mas deve proibir a clonagem humana. Em contrapartida, os ingleses já fizeram uma lei aprovando o clone humano para pesquisa com as células-tronco (encontradas nos embriões e que dão origem à demais células do corpo), o que foi uma coisa louvável.

JC – Para evitar abusos, não seria melhor proibir a clonagem humana?

ABDELMASSIHA questão não é proibir, mas não permitir que se faça clonagem humana com finalidade reprodutiva, enquanto não houver a segurança da eficiência da técnica e dos seus resultados.

JC – Como ficarão agora as suas relações profissionais com o professor Severino Antinori, já que vocês dois se conhecem e pretendem trabalhar juntos?

ABDELMASSIHEu continuo tendo por ele a mesma amizade e mesma relação profissional de sempre. Ele deve continuar com suas pesquisas, mas sem tanta pressa. Eu acho que ele foi um pouco afoito em querer fazer clonagem humana com finalidade terapêutica reprodutiva quando nós não conhecemos efetivamente os seus resultados. O fato de eu discordar do procedimento não me torna seu inimigo.

JC – O senhor vai aceitar o convite para ser vice-presidente da Associação de Clínicas Privadas em Reprodução Assistida, a ser criada pelo italiano?

ABDELMASSIHVou, a menos que ele decida fazer uso da associação para realizar clonagem de seres humanos, o que eu não creio que vá ocorrer.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo