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COMPORTAMENTO
A colecionadora de almas

Enedina Santiago Salvador tem um passatempo inusitado: anotar num caderno nomes de defuntos

por SÍLVIO MENEZES

Ela é uma colecionadora de almas. Há pelo menos 30 anos, a viúva Enedina Santiago Salvador, 77, anota nomes de pessoas mortas em seus cadernos. Não importa quem seja. Artistas, políticos, astros da música, esportistas, familiares e até desconhecidos. Todos ganham o mesmo espaço na ‘seleção fúnebre’ de dona Carrapeta, como ela também é chamada pelos parentes. “O que me interessa é que as pessoas tinham vida. Tenho muito apreço pelas almas e rezo por elas todas as noites”, justificou.

Além da identificação do defunto, ela anota ainda o motivo da morte e a data. O primeiro nome da lista é o de sua mãe, falecida em 1929. O último (até o dia 06 de agosto), o escritor Jorge Amado. Dona Carrapeta não sabe precisar a data exata nem o porquê da coleção, mas lembra que na época de solteira gostava de acompanhar enterros e freqüentar cemitérios.

São milhares de nomes que chegam ao seu conhecimento de todas as formas. Rádio, jornal e televisão são as principais fontes de notícias. “Só assisto ao repórter com um caderno de lado porque anoto todas as informações do morto logo para não perder nenhum detalhe. Quando não sei a identidade, anoto o fato ou a profissão”, disse.

Mesmo estando sempre atenta, ela ainda conta com o apoio dos seus parentes para preencher a coleção. “Minhas filhas que moram no bairro de Beberibe, telefonam para minha casa todas as vezes que alguém morre e dizem: mamãe, anote mais um”, orgulha-se.

Mas, o apoio que tem em família não é unanimidade com os vizinhos de sua casa, no bairro de Rio Doce, Olinda. Uma colega lhe aconselhou a jogar todo o material fora, sob a alegação de que lugar de morto é no cemitério e não em caderno. Dona Carrapeta ignorou a dica e continuou firme com a coleção. “Não tenho medo de assombração. As almas servem para proteger os vivos. Nunca vou parar com isso porque nem meu marido reclamava”, argumentou.

TELELUTO – Hoje, muitos colegas se aproveitam do material fúnebre para usá-lo como consulta. Várias pessoas telefonam para a residência dela perguntando a data exata em que um artista morreu. Ela vai até os cadernos e passa todos os detalhes. Para ganhar tempo, copiou uma lista com nomes de diversos atores das principais novelas da TV. “Quando algum deles morrer eu só preciso marcar uma cruz ao lado, botar o motivo e data”, ensinou. Publicações antigas servem de instrumento para a aposentada. No mês passado, ela leu numa revista os nomes dos artistas do seriado mexicano Chaves que haviam morrido e acrescentou novos dados na sua lista.

A paixão pelos cadernos - já preencheu vários - é tão grande que ela pretende levá-los no caixão quando chegar o seu dia D. “Como tenho certeza que ninguém vai continuar com esse trabalho quero que sejam enterrados comigo”, avisou.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo