Trabalhadores com data-base no segundo semestre se preparam para duras negociações com os patrões, principalmente no ramo industrial. A preservação do emprego será a principal reivindicação da categoria
por MARIANA CAMAROTTI
Patrões e empregados com data-base no segundo semestre estão se preparando para travar uma das mais difíceis negociações trabalhistas dos últimos anos e terão a garantia do emprego como principal assunto da pauta da campanha. O motivo é o cenário que se configura: alta do dólar, da inflação e dos juros, desaceleração no crescimento da economia brasileira, crise argentina, demissões nas indústrias e, para piorar, o racionamento de energia.
Mesmo enfraquecidos diante das ameaças de demissão, os sindicatos também vão brigar pela reposição das perdas salariais, aumento real e inclusão de novos benefícios para o trabalhador. Mas não devem ter os mesmos resultados dos anos anteriores porque os patrões alegam que os reajustes devem ser repassados segundo a conjuntura do mercado.
A indústria é o ramo mais atingido pela recessão e o clima entre os trabalhadores é de tensão , principalmente nos setores têxtil, metalúrgico e da construção civil. O presidente do Sindicato da Indústria Têxtil de Pernambuco (Sinditêxtil), Oscar Rache, adianta que não deve haver reposição salarial e que a dificuldade de manter o emprego será colocada na mesa de negociação. “A saída neste momento são as licenças remuneradas e férias coletivas. O banco de horas também ajuda a não demitir”, diz Rache, que é presidente da Tecelagem São José.
Já o presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Recife, Jorge Souza, diz que “essa conversa é jogo dos patrões e a discussão não pode começar pela garantia dos empregos porque é muito pouco.”
Em Pernambuco, a Tecelagem São José decidiu suspender a produção por um mês porque está com um estoque que não consegue desovar. A Fibrasil demitiu 220 trabalhadores e a Suape Têxtil acordou com os funcionários a redução em 15% dos salários e da jornada.
Enquanto isso, a Braspérola está com o pagamento atrasado há mais de 40 dias. “Desde o final de junho estamos trabalhando sem dinheiro e já tenho contas vencidas para pagar”, diz Amaro Félix, operário da Braspérola. “A empresa não libera nem quem pede as contas para não pagar indenização”, diz Manasses Tavares, da mesma indústria.
METALÚRGICOS – “Vamos reivindicar o máximo do índice de reajuste para ver onde vamos chegar”, diz o diretor de Comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos, Luiz Lima. “Se não conseguirmos, entramos em greve”, diz.
Segundo os sindicatos, é necessário um reajuste de 8% a 9% para repor as perdas salariais dos últimos 12 meses, medidas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).
“Os trabalhadores precisam estar conscientes da situação. A reposição será difícil porque o fundamental neste momento é o emprego”, diz o secretário executivo do sindicato patronal do setor metalúrgico, Girley Brazileiro.
O argumento de que a recessão impedirá ganhos para o trabalhador se repete no Sindicato da Indústria de Construção Civil (Sinduscon). O presidente da entidade, Jorge Côrte Real, diz que o desempenho do setor deve cair nos próximos meses e que a conseqüência é a redução na oferta de empregos. “Muitas das obras que temos são contratadas pelo Governo do Estado e isso deve diminuir a partir de agora”, adianta.
Com tradição em mobilização e em greves, os trabalhadores dos canteiros de obras dizem que não vão entregar os pontos. “Queremos não só reajuste como aumento real, segurança no trabalho e fim das cooperativas. Se não for assim, entramos em greve”, diz a presidente do sindicato, Dulcilene Morais. Ela diz que o segredo para conseguir os itens da pauta é a militância.
Na indústria de bebidas, a situação não é tão grave porque o setor tem um aquecimento da produção e necessidade de contratação no segundo semestre. No ramo químico, a estratégia é a nacionalização do discurso e o argumento de que as empresas registraram crescimento de até 18% em Pernambuco em 2000.
O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Pernambuco, Jorge Perez, diz que o emprego é a questão central e que a estratégia para ganhar força neste momento é a unificação das campanhas respeitando as pautas de cada categoria. O que ele propõe, e que será discutido no próximo dia 22 em plenária dos trabalhadores, é a solidariedade na mobilização. “É preciso envolver também a sociedade”, diz.