Enjôos, desejos, ansiedade: todos os sintomas clássicos da mulher grávida também podem ser sentidos por seus parceiros. Confira as histórias de homens que ‘engravidaram’
por LUIZA BARROS E BRUNO ALBERTIM
Um bebê nasce. Seu pai passa cinco dias em casa com ele e volta a trabalhar, a fim de, segundo pregam, prover o sustento da família. A mãe, como ser que pariu e vai amamentar, tem direito a dedicar-se integralmente durante 120 dias ao novo rebento. Os prazos, denominados como Licença Paternidade e Licença Maternidade, respectivamente, são previstos por lei. Para alguns, a disparidade da extensão de dias entre um caso e outro é correta e justa. Para outros, trata-se de uma incoerência. Afinal, se por um lado a lei se refere à livre decisão do casal no planejamento familiar, por outro não considera a eqüidade de direitos na criação dos filhos. Há ainda quem vá além e defenda: não basta ser pai, tem que ‘engravidar’.
“O legislador criou um paradoxo. Na Constituição, fala-se em paternidade responsável, mas não são criados subsídios para isso. Daí porque sou a favor de uma licença paternidade maior. Aliás, não vejo motivo algum para os direitos do pai e da mãe serem diferentes. Até porque há casos em que a mulher é profissional liberal enquanto o marido tem carteira assinada”, argumenta o advogado trabalhista Eduardo Guerra de Castro. A legislação, por incrível que pareça, é apenas um dos pontos que refletem a ausência da participação masculina nos primeiros dias do filho e, na maioria das vezes, até mesmo durante sua gestação.
A ONG Cais do Parto acredita que, excetuando-se as limitações biológicas, o ato de engravidar não é um privilégio da mulher. Afinal, o homem também tem o apetite alterado (enjoando ou ficando extremamente ‘guloso’), assim como passa por outras transformações físicas, químicas e emocionais com a possibilidade de chegada da cria. “É um evento transformador para os dois gêneros”, avalia Sueli Carvalho, parteira e coordenadora da instituição que, entre outras realizações, é responsável pelo projeto ‘Casais Grávidos’, no qual incentiva a participação do pai na gravidez, no parto e após o nascimento.
“Nos primeiros meses de vida do bebê, quando tudo dentro de casa parece estar fora do lugar, o homem é um grande companheiro, porque a criança e a mulher precisam de seus cuidados. A Licença Paternidade de apenas cinco dias pode ser considerada um ganho, se levarmos em conta o que tínhamos há pouco tempo. O olhar, no entanto, ainda é machista. Para mulher, é natural estabelecer uma relação com o filho, mas o homem não teve a experiência de ter o feto dentro de si. Como ele vai construir uma relação afetiva e social com o filho senão com a convivência intensa?”, questiona Sueli. Por construção de uma relação com o filho entenda-se a participação masculina na gravidez, no parto e no nascimento. “Uma das maneiras de se fazer presente é estimular a nutrição adequada da mulher enquanto ela estiver grávida e amamentando. Ao fazer a feira, ele acaba procurando os alimentos adequados”, exemplifica Sueli. A escolha alimentar não é apenas uma questão nutricional, tampouco restrita à saúde da mulher e do bebê. “Alguns pais têm desejos, outros engordam e alguns chegam até a emagrecer, porque se sentem enjoados. Existe uma relação física e emocional. Quando a mãe está bem, o pai também está. É uma simbiose”, comenta a parteira.
“GRÁVIDO” – A sintonia entre o casal – e futuros pais – é nítida e aparente em muitos casos. “O parto não é só o momento quando a criança nasce. É a finalização de um processo que se iniciou na concepção e o início de outro momento, que é a criação do filho. Participo intensamente de toda as etapas, considero-me grávido e acho que vou ‘parir’. Estou tão voltado para o fato de ter um filho como minha mulher está. Quando ela tem enjôo, eu também tenho. Também cancelei compromissos e ajudei a escolher o enxoval, o quarto e o nome do bebê”, conta o médico Marco Antônio Menelau, 34 anos, ‘grávido’ há oito meses de Maria Augusta e integrante do grupo de Casais Grávidos.
Companheiro de Marco nas reuniões promovidas pela ONG Cais do Parto, que, recentemente, lançou um vídeo para educar os grávidos, sob a direção da documentarista Tarciana Portella, o agrônomo Flávio Duarte, 31, considera importante a chance que a entidade lhe deu de compreender as mudanças e transformações no corpo de sua companheira, a designer Silvana Marincola. “Entendo o que se passa com o corpo dela e com a criança, por isso me sinto mais apto a dar apoio. É uma maneira de participar da gestação de meu filho”, diz. Apesar do contentamento, Flávio tem uma frustração - a possibilidade de não estar presente quando sua mulher for dar à luz. Se o bebê não posicionar-se adequadamente para um parto normal (até o dia da reportagem, ele estava ‘sentado’), Silvana não poderá parir em casa, como deseja o casal. “Nenhuma maternidade do SUS na Região Metropolitana permite que o pai assista ao parto. É como se não precisasse da gente só porque o médico está ali. Eles não sabem o quanto o pai pode ser útil naquela ocasião. Mas o momento ainda é tido como doloroso, perigoso e arriscado. Isso tudo é um grande equívoco”, reclama.