Médico anuncia que vai iniciar as primeiras tentativas de clonagem de seres humanos
por MARCELO ROBALINHO
Da Editoria de Cidades
O anúncio feito na última terça-feira pelo professor italiano Severino Antinori, um dos maiores nomes na área da reprodução humana, de que vai iniciar as primeiras tentativas de clonagem de seres humanos a partir de novembro, reacendeu novamente a polêmica. Até que ponto a criação de indivíduos geneticamente idênticos deve ser permitida? A discussão sobre o assunto, ao que parece, vai ser longa.
De um lado, o Vaticano condena a experiência. Do outro, cientistas alegam que a clonagem poderia ser uma alternativa para resolver o problema da esterilidade – que afeta 20% dos casais em idade fértil no mundo – ou mesmo para reprodução de órgãos e tecidos humanos vitais para transplantes, por exemplo. No meio das discussões, governos estão criando leis e normas mais rígidas, uma vez que a clonagem ainda provoca desconfianças e muitos desentendimentos até no próprio meio científico. O que poucas pessoas imaginariam é que uma técnica até pouco tempo restrita a filmes de ficção científica seria possível tão rapidamente. Segundo informou Antinori, que ficou famoso por ter feito uma mulher de 62 anos engravidar, já existem 200 casais voluntários recrutados de vários países para fazer parte do programa de clonagem humana. Eles serão tratados gratuitamente. “A clonagem é a última fronteira que daria ao ser humano estéril a possibilidade de transmitir seus genes”, explicou o professor ao jornal britânico Sunday Times.
No Brasil, a clonagem não é permitida. Conforme a resolução 1.358, de 1992, do Conselho Federal de Medicina, a fecundação de oócitos humanos (gametas) é proibida com qualquer outra finalidade que não seja a procriação humana. Nos Estados Unidos, o Congresso Americano baniu a utilização do dinheiro público em pesquisas que destruam embriões. Para que a clonagem da ovelha Dolly fosse possível, 277 embriões morreram.
A técnica, que se baseia na substituição do núcleo do óvulo de um doador pelo DNA (o código genético) da pessoa a ser clonada, é tecnicamente simples. Na prática, no entanto, a história é bem diferente. Com freqüência, os clones sobreviventes apresentam anomalias, tais como problemas cardíacos, respiratórios ou mesmo imunológicos. O que indica que não há, ainda, uma forma de prever se o clone se desenvolverá como um indivíduo normal. “Utilizada com critérios éticos, a clonagem poderá, no futuro, trazer grandes avanços à Medicina, por exemplo, na questão de transplantes de órgãos, em que um indivíduo poderá receber tecidos geneticamente idênticos aos seus, sem ter riscos de rejeição”, acredita Roger Abdelmassih, um dos maiores especialistas brasileiros em medicina reprodutiva.
Apesar dos benefícios que a clonagem possa trazer nos próximos anos, o questionamento sobre os limites éticos e científicos da aplicação da técnica ainda fica em aberto. “A clonagem ainda é um assunto muito polêmico e que precisa ser bastante discutido entre a sociedade e a comunidade científica. É preciso definir critérios para que essa conduta não venha a se transformar num mercado, sobretudo se ela for aplicada nos casais estéreis, que, na maioria das vezes, lutam a todo custo para ter um filho”, opina a vice-presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), a psiquiatra Maria do Carmo Vieira, que estuda, há três anos, os aspectos éticos e psicológicos da reprodução humana.
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