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COMPORTAMENTO II
‘Gravidez’ do homem ajuda o parto

A companhia masculina pode gerar um aumento de peso no bebê, tranqüilizar mãe e recém-nascido e até evitar a depressão pós-parto

Café, feijão e cigarros. Esses elementos tornaram-se insuportáveis para o estudante Ricardo Gomes, 22 anos, quando, há dois anos, sua então namorada, Fátima, hoje com 18, engravidou de Caio, o filho do casal. “Parecia realmente que eu estava grávido. Enjoei dessas coisas. Até desejos de comer alimentos específicos eu sentia”, conta o pai. Apesar de ter interrompido a relação amorosa no quinto mês de gravidez da moça, Ricardo não cortou o vínculo com o rebento que viria. Acabou, inconscientemente, convertendo-se num caso clássico de pai que compartilha da gestação.

Ricardo passou toda a gravidez acompanhando a alimentação da mãe de seu filho, foi aos exames, esteve presente ao parto e, hoje, divide os cuidados sobre Caio. “Ele acaba morando na minha e na casa dela. No início, pensei que a paternidade seria ruim. Mas, passado o impacto inicial, vi como me fez bem. Me deixou mais seguro, mais responsável, enfim, mais adulto”, analisa.

TERCEIRO ELEMENTO – Essa participação ativa, da concepção à educação, segundo especialistas, garante um vínculo afetivo mais imediato da criança com o pai. A figura paterna não é – para usar uma conceito freudiano – a terceira que, após meses de nascimento, se interpõe na relação da mãe com o filho. “Desde pequeno que ele pedia meu colo. A primeira vez que falou ‘papai’, aos dez meses, eu quase fiquei paralisado”, diz Gomes. “Os sintomas que o homem apresenta são decorrentes de uma grande sintonia com a gravidez, da admiração pela capacidade de reprodução da mulher. São positivos para o desenvolvimento afetivo da criança”, diz o psicanalista Antônio Carlos Escobar.

O coordenador do Programa de Apoio ao Pai (Papai), grupo de psicólogos e outros profissionais criado para discutir a paternidade e dar suporte aos pais, o psicólogo Jorge Lira diz que os homens precisam mudar a cultura em que são educados, a do não cuidar. “O homem não pode se limitar ao papel de provedor financeiro. Durante a gravidez, o bebê reage, por exemplo, aos humores da mãe. O companheirismo e o afeto de seu parceiro vão ajudar ao desenvolvimento tranqüilo do bebê”, diz. “Pesquisas mostram, inclusive, que o acompanhamento do pai durante a gestação provoca um aumento de peso no bebê.”

Para o acompanhamento da criança, após o nascimento (entenda-se não apenas trocar carícias, mas revezar cuidados com a alimentação, sono e higiene ), não vale, segundo o psicólogo, o argumento de que os homens não têm experiência e conhecimentos suficientes. “As mães de primeira viagem também não sabem como se conduzir, mas aprendem. O homem também pode fazê-lo, inclusive, participando da consulta pós-parto com o médico”, aconselha Jorge. “A criança é pesada. Depois de amamentar, o homem pode muito bem colocá-la para arrotar”, aponta.

O papel do pai logo após o nascimento do filho, ainda na maternidade, não pode se configurar como o de visitante. Alguém que, como os outros, vai matar a curiosidade sobre o novo membro da família. “A presença do pai, desde a hora do parto, vai tranqüilizar a mãe, garantir um parto melhor, humanizado. Para muitas, parir é algo tão inusitado quanto para o pai”, diz Lira.

VAGINA - Presenciar o parto, no entanto, requer a superação de duas barreiras. A primeira é vencer a resistência de muitos médicos, que ignoram a portaria do Ministério da Saúde sobre parto humanizado e vetam a presença paterna durante o nascimento (ver matéria ao lado). A segunda é estar emocionalmente preparado para ver o nascimento, sobretudo porque a vagina, um dos símbolos do tesão entre o casal, vai estar, em caso de parto natural, à vista com um propósito até então inusitado: servir de canal de passagem para uma criança.

A ‘gravidez’ masculina durante a gestação da parceira vai eliminar um risco tão comum quanto estranho nos pais de recém-nascidos: o de rejeição e ciúme à criança. “O vínculo do pai com filho já vai estar forte antes de seu nascimento. Assim, provavelmente, ele não terá ciúmes da mulher quando o filho nasce e lhe toma todas as atenções”, diz Jorge Lira. Outro ponto positivo da ‘gravidez’ masculina: embora não haja números a respeito, os médicos sabem que o acompanhamento materno, da gestação ao nascimento, diminui a incidência de depressão pós-parto. “A presença dá segurança e respaldo à mulher”, reitera Lira, que, hoje, realiza uma exposição sobre as atividades do Papai na Praça de Eventos do Shopping Center Recife. (B.A)

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo