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COMPORTAMENTO IV
Idade define a atitude dos pais

As mais diversas fases da vida são vitais para se entender a mudança comportamental dos pais de hoje. Um pai de 30 anos não é o mesmo pai aos 60

por ANTÔNIO MARINHO E MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

Manoel Carlos Jr., de 48 anos, Maria Carolina, de 32, Júlia, de 18, e Pedro, de 9, são todos filhos do escritor Manoel Carlos, mas têm pais bem diferentes. É que o autor da minissérie Presença de Anita, da Rede Globo, viveu a experiência da paternidade de modos variados. “Fui pai aos 20, 21, 35, 50 e 59. Perdi um filho, Ricardo Luiz, em 1988, aos 33 anos. Meus dois primeiros filhos me amadureceram prematuramente, enquanto meus dois últimos me rejuvenesceram. Sempre ganhei com eles”, diz o escritor.

Qual a idade ideal para a paternidade? Ainda bem jovem, aos 20 anos, com energia para ser companheiro para todas as incansáveis brincadeiras? Na idade madura, aos 40 anos? Ou com a sabedoria dos 60? Para a diretora da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, Tânia Leão Pedrozo, mais importante que a idade cronológica de cada pai é o seu equilíbrio emocional e como ele se posiciona diante da vida. “O pai aos 60 traz uma marca de sua geração, o que pode gerar conflitos, mas as pessoas têm capacidade de se renovar. E, nessa idade, ele pode ter mais tempo para conviver com os filhos”, explica.

Manoel Carlos Tolera tudo dos filhos. “Aos 68 anos, posso ter ficado intolerante com muita coisa e com muita gente, mas com meus filhos deu-se o contrário: aceito melhor tudo, até mesmo a idade. Não sou exageradamente jovial, nem me preocupo em parecê-lo, mas ainda me divirto com eles, rio com eles, sou feliz com meus filhos”, diz o novelista.

As netas também são presenças importantes na vida do escritor: “Tenho duas netas mais velhas do que a minha filha Júlia, de 18. Mariana e Luiza têm, respectivamente, 22 e 21. Isso também é uma experiência interessante, porque as três são amigas, como se fossem irmãs. Tenho ainda um neto de 5 e uma netinha caçula de 1 ano e meio. Portanto, aqui em casa, há uma grande variedade de experiências, misturando emoções e sensações de um pai-avô, que sou eu.”

Ele acrescenta que a família é tudo. “Quando ela não existe ou se fragmenta, resulta em solidão e infelicidade. O pai é o maestro, que precisa saber reger com harmonia os bons e os maus momentos da família. Tem que ser sensato e administrar com amor, mas também com autoridade, os problemas e as dificuldades.” Para o psicanalista Noé Marchevsky, para ser um bom pai é preciso apenas duas coisas: maturidade e disponibilidade. O pai de 20 anos, segundo ele, tem muita disponibilidade física e pouca maturidade. Já o de 60 anos costuma ter muita maturidade, mas pouca disponibilidade física para o cotidiano de alta vitalidade das crianças. “O mais adequado seria o pai de 40 anos, que equilibraria as duas coisas.”

DEPOIS DOS 60 ANOS – O cantor e compositor Martinho da Vila, 63, coleciona também uma prole de oito filhos de várias gerações, desde o Martinho Antônio, o Pinduca, 38, até Preto, de 4, e Alegria, de 1. Mas só agora, após os 60 anos, Martinho conta que conseguiu ser um pai realmente presente e atencioso na vida de Pedro e Alegria.

“Minha vida era muito desorganizada na época dos outros seis filhos mais velhos. Tinha muita novidade para ver na rua e não parava em casa. E agora, com Cléo, tenho um casamento de verdade. Como seus parentes não são do Rio, ficamos sempre juntos. E na rua já não há tanta novidade; há muita reprise”, diz. Ele diz que é um pai mais maduro até para os mais velhos, que têm vidas atribuladas, mas estão sempre juntos em sua casa, em Vila Isabel, em rodas de samba, assim como estarão no lançamento de seu disco, dia 24, no Canecão.

MESMA INTENSIDADE – Para o ator Luigi Baricelli, 30, pai de Rúbia, 10, de Vitório, 3, e à espera de mais um filho com a mulher, Andrea, a emoção de ser pai tem a mesma intensidade em qualquer idade. A capacidade de se dedicar à educação das crianças é que, segundo ele, faz a diferença.

“Eu me lembro que, quando vi a Rúbia pela primeira vez, chorava tanto que tudo parecia embaçado, de tanta emoção e lágrimas. Com o Vitório foi a mesma sensação. Eu resolvi filmar o parto. Estava dando uma de diretor. Fazia closes do médico, outros da Andrea. Mas quando o Vitório apareceu eu quase caí duro no chão. Lá se foram as imagens para o espaço. Chorei muito de novo. Eu acho que todo mundo que vê um filho, tão bebezinho, sente a mesma coisa, uma emoção louca”, diz. Mas a paternidade, para Luigi, exige um mínimo de maturidade para que haja condições de dar atenção, afeto e educação aos filhos. Ele conta que, aos 20 anos, quando teve a Rúbia, estava ainda muito envolvido em se afirmar profissionalmente até para garantir o sustento da menina. “Naquela época, eu estava preocupado demais em trabalhar. Não estava preparado totalmente para ser pai. Hoje eu posso curtir mais a Rúbia e o Vitório. Tenho condições de oferecer a eles educação, conforto e carinho. Porque ter filho é bem mais complexo do que parece à primeira vista”, garante o ator.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.08.2001
Domingo