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FORA DOS TRILHOS
CFN é recordista em acidentes

A quarta reportagem da série sobre o desmonte da Malha do Nordeste revela que após a privatização da RFFSA, em 1997, os acidentes tornaram-se constantes. Segundo dados do Ministério dos Transportes, a CFN registra o maior número de desastres entre os seis grupos privados que operam ferrovias no País. O contrato de venda da RFFSA previa que a empresa tinha que fechar o primeiro ano de operações com 161,5 acidentes por milhão de trem/km, mas ocorreram 391,3 acidentes por milhão de trem/km no período. Na avaliação dos sindicalistas, a má conservação das locomotivas e dos vagões e a falta de investimentos provocaram o crescimento do número de descarrilhamentos. Problemas como o roubo de peças e de equipamentos ao longo da ferrovia também ampliam os riscos para quem trabalha na Malha Nordeste. Amanhã, o Jornal do Commercio mostra a quinta reportagem da série, que vai tratar da falta de fiscalização das operações ferroviárias.

por ÂNGELA FERNANDA BELFORT e JAMILDO MELO

Enquanto estiver vivo, o recifense Marcos Vieira de Andrade, de 47 anos, nunca esquecerá o dia 8 de março de 1999. Naquela noite, trabalhando em Souza, na Paraíba, o ferroviário perdeu a perna direita num grave acidente, quando a equipe de socorro em que viajava tombou na linha. O fato trágico é que o acidente ocorreu no momento em que a equipe de Marcos Andrade estava se deslocando até a divisa com o Ceará para socorrer outra locomotiva acidentada. No mesmo acidente, um colega de Marcos Andrade morreu.

O acidente foi provocado por um grampo na linha (prego que fixa os dormentes aos trilhos), mas as condições de trabalho agravaram o sinistro. “Viajávamos em uma caminhonete adaptada para correr sobre os trilhos. Trabalhávamos à noite e o veículo não tinha a iluminação adequada, como uma locomotiva de socorro. Além disso, os cinco reboques que estavam sendo puxados tinham excesso de peso. O comboio devia pegar 1,2 mil quilos, mas estava com 5 mil quilos, incluindo até tambores de gasolina. Dos cinco reboques, três carregavam dormentes”, conta Marcos Andrade.

Longe de se constituir em um caso isolado, os acidentes nos trilhos da Malha Nordeste são cada vez mais frequentes, especialmente após a privatização da RFFSA, em 1997. Os números do Ministério dos Transportes mostram que a Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN) registra o maior número de acidentes entre os seis grupos privados que operam ferrovias no País (veja tabela abaixo).

Só no primeiro ano de operações, com a ocorrência de 391,3 acidentes por milhão de trem/km, a CFN conseguiu superar em 142,29% as metas estabelecidas para redução de acidentes. O contrato de concessão, assinado com o Governo Federal em 31 de dezembro de 1997, previa que a empresa tinha que fechar o primeiro ano de operações com 161,5 acidentes por milhão de trem/km.

Na época em que era estatal, o índice de acidentes era de 139 por milhão de trem/km. O índice mais elevado foi registrado em 1991, com 179 acidentes por milhão de trem/km.

As metas de redução de acidentes após a privatização estão previstas no parágrafo segundo da quinta cláusula do contrato assinado pelo Governo Federal e a CFN em 1997. A cláusula nona, que trata das obrigações da concessionária, também prevê que cabe à CFN manter as condições de segurança operacional da ferrovia, de acordo com as normas em vigor.

Para os sindicalistas, os acidentes cresceram devido à falta de investimentos na via e à má conservação das locomotivas e vagões. “Os maquinistas rezam mais do que beatas, durante a condução dos trens, temendo tombos ou descarrilhamentos”, diz o sindicalista Raimundo de Oliveira, diretor do Sindicato dos Ferroviários em Pernambuco. “No tempo da RFFSA, quando chovia, saia um funcionário, conhecido como Ronda, para verificar as condições da linha. Hoje é cada um por si e Deus por todos.”

Atualmente, os roubos de peças ao longo da via também contribuem para os acidentes. Há 20 dias, em Paudalho, na Zona da Mata de Pernambuco, uma composição virou na altura do quilômetro 43. Os funcionários da CFN contaram que o roubo de uma agulha, equipamento que muda a direção dos trilhos, ocasionou o acidente. Pior para a própria CFN. Com o crescimento dos acidentes, a empresa prejudica o faturamento. “A grande quantidade de acidentes afastou os clientes, pois ocasionavam demora e perdas”, explica o presidente do Sindicato dos Ferroviários da Paraíba, Cleofas Brito.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.09.2001
Quarta-feira