O tema remete ao mito grego de Eletra, mais tarde utilizado por Jung para explicar o amor exagerado e a fixação feminina pela figura paterna
por BRUNO ALBERTIM
Superlativos. Assim são eles aos olhos de meninas, garotas, mulheres, adolescentes ou adultas, que lhes acompanham desde que nasceram. Os mais bonitos, charmosos, inteligentes. Os mais sensíveis, polidos, sinceros e éticos. Tudo o que elas poderiam esperar do comportamento masculino. Ao contrário do que se pode pensar, eles não são fenômenos de mídia - tampouco precisam sê-los. São ninguém menos que os simples e corriqueiros pais. Não estão com a beleza calculada que a TV exige. Mas, até com a barba por fazer, são estrelas. Protagonistas da chamada versão feminina do complexo de Édipo, as mulheres não fogem do papel de platéia para os ‘donos dos cromossomos Y’ que compuseram seus genes. E renovam o mito classificado por Jung sobre a fixação feminina pela figura paterna, mostrando que eletras, modernas, continuam com toda a força na era em que se assiste ao surgimento da manipulação genética.
“Eu sou viciada no meu pai”, resume, apaixonadamente, a professora de educação física Leila Cireno, 27 anos. “Ele é tudo: amigo, pai, companheiro. Vaidoso, cheiroso, lindo”, emenda a filha do empresário Sérgio Correia Cireno, 56, que precisa dividir com as outras filhas sua disputada atenção. “Com as irmãs, a gente divide porque é o jeito. Mas aviso logo que sou ciumenta. Se uma prima chega perto do meu pai para dar beijo, abraçar, eu já dou um ‘chega pra lá. Digo ‘pára porque o pai é meu!’, diz a mais velha, Gabriela Cireno, 29.
Assim como ocorre no complexo de Édipo, quando o homem procura, de certa forma, na mulher amada a imagem materna, as mulheres, sob o chamado complexo de Eletra, também reproduzem o fenômeno psicanalítico. “A escolha do parceiro respeita as imagens do pai”, aponta o psicanalista Antônio Carlos Escobar (veja matéria na página 2). A mais nova da família Cireno, Juliana, 23, reconhece e fundamenta as afirmativas da psicanálise: “A escolha não é consciente, mas, quando estou namorando, acabo percebendo que ele tem coisas bem parecidas com meu pai. Quando aumenta o conhecimento íntimo, vejo que há coisas bem parecidas”.
Gabriela não acha que seja tão necessário, para a felicidade conjugal, que o marido tenha semelhanças com o pai. “Casei com a pessoa que o meu marido é e não pelo meu pai. Mas a comparação entre os dois acaba ocorrendo. Afinal, meu pai é meu grande referencial, diz Gabriela que, há três anos casou, mas não abre mão do carinho paterno. “Quase todo dia almoço na casa dos meus pais”, diz ela, que não tem receio de assumir uma identificação maior com o pai do que com a mãe. “Amo profundamente minha mãe, tenho cuidados com ela, mas não posso negar que me identifico mais com o meu pai. Como ele não teve filhos, homens, eu acabei virando a companheira dele desde sempre”, diz ela, que, durante a infância, era uma espécie de ‘filho-mulher’.
Sérgio Cireno, na qualidade semi-involuntária de ‘sua excelência, o pai’, diz se preocupar com o fato desse fator poder interferir na felicidade conjugal das filhas. “Sempre procurei dizer a elas que, quando estiverem namorando, procurem as qualidades e valores próprios deles (os parceiros). Que não julguem muito, nem cobrem tomando o pai como modelo”, diz. “Elas precisam entender que, hoje, aos 56 anos, eu sou uma pessoa diferente do que eu era quando tinha 25. Com o tempo, a gente aprende a entender e a cativar as pessoas”, ensina ele que, assumidamente, tem a atenção como uma de suas virtudes. “Procuro conhecer as pessoas para saber o que as sensibiliza.”
A exacerbação da fixação na figura paterna pode sim criar problemas na vida entre quatro paredes. “Hoje eu sei que meu casamento acabou porque eu cobrava muito do meu ex-marido posturas que eu sei que meu pai teria diante de determinas situações. Não era proposital, mas, quando percebia, já estava comparando os dois”, diz a analista de sistemas Ana Clara Borba, 27. “O cara não suportou tanta marcação”, admite ela, solteira por enquanto, mas ‘escalada’. “Agora eu sei que meu pai continua um modelo. Mas modelos nem sempre podem ser reproduzidos.”
Longe de criar problemas, porém, os pais acabam se tornado o modelo das virtudes que essas mulheres acreditam que todo homem deve possuir. “O meu pai é sério e extrovertido, determinado com o que quer, e tem muito respeito. Essas qualidades, que eu conheci por meio dele, devem estar presentes em todos os homens”, acredita a estudante de comunicação Amanda Albuquerque, 20.
Outro traço típico das eletras assumidíssimas: elas costumam idealizar a figura do pai. Por razões óbvias, têm dificuldade em encontrar defeito neles. “Eu enxergo, às vezes, algum defeito. Mas não é fácil. Acho até que ele é mais perfeito do que realmente é. Sei que, como qualquer pessoa normal, ele tem suas falhas. Mas, se me pergutarem para dizer uma, não consigo expor”, dispara Gabriela Cireno. “Meu pai é o máximo. Tenho certeza de que não há outro igual”, completa a irmã Juliana. “Ele soube administrar tão bem seu amor por nós que eu tenho certeza de que, cada uma, se questionada, irá dizer que é a predileta”, garante Leila. Diante de tanta convicção, ninguém duvida.