Segundo dados do Ministério da Saúde, de cada 3.400 casos, um trata-se deste tipo silencioso de câncer
por BRUNO ALBERTIM
Ele é uma espécie de tumor silencioso. Não faz alarde, não oferece sintomas sobre seu surgimento. O câncer de mediastino se vale do anonimato para desenvolver-se em suas vítimas. Recentemente, quando, em 1998, a doença matou, no auge da carreira que desenvolvia em dupla com o irmão Leonardo, o cantor Leandro, a população brasileira ouviu, sob o impacto da perda do astro popular, informações maiores sobre o tumor que se desenvolve na região torácica. Ano passado, a produtora Marlene Matos, responsável pela carreira da apresentadora Xuxa, conseguiu se curar do mal. Passados esses episódios de mídia, no entanto, o assunto acaba tornando-se quase tão oculto como o próprio tumor quando surge. Mas o tema requer atenção: hoje, segundo dados do Ministério da Saúde, de cada 3.400 casos conduzidos aos centros especializados, um trata-se de câncer de mediastino.
Tão letal quanto as outras formas de câncer, a variante que ocorre no mediastino requer atenção redobrada em seu diagnóstico. “O surgimento desse câncer não provoca dores, nem sinais objetivos”, endossa o cirurgião do tórax do Hospital Português e professor de Cirurgia Torácica das Universidades Federal de Pernambuco (UFPE) e Estadual de Pernambuco (Fesp), Cláudio Gomes. “O tumor pode atingir até vinte centímetros de diâmetro sem dar sinais de sua existência”, diz o médico que, em julho, esteve em Gramado, no Rio Grande do Sul, para defender um trabalho sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mediastino, durante o 7º Congresso Brasileiro de Cirurgia Torácica.
O mediastino não é um órgão, mas uma cavidade no centro tórax, localizada entre os pulmões. Nele, estão o coração, nervos, glândulas e tecidos linfáticos e conjuntivos, entre outros. Ao contrário, mais uma vez, do que ocorre com outros tipos de câncer, como o de pulmão, que está relacionado ao tabagismo, o de mediastino não possui comportamento de risco entre suas causas. “Às vezes, ele decorre de uma pré-disposição genética. Mas suas causas mais diretas ainda são desconhecidas”, diz o oncologista Evyo Abreu e Lima, do Departamento de Medicina Clínica da UFPE.
Uma das causas do tumor seria a chamada “implantação à distância”. “Ocorre quando a célula neoplásica (tumoral) migra pelo sangue e se instala nos compartimentos mediastinais”, diz Gomes. “O caso mais freqüente, nessa hipótese, é de tumores originados na bolsa escrotal”, completa.
PREVENÇÃO – Por estar ligado a vários tipos de tecido e órgãos, o câncer de mediastino pode ter tipos diferentes de tratamento. Ele só vai apresentar sintomas quando estiver muito desenvolvido e, infelizmente, já tiver, provavelmente, comprometido a vida do paciente. “Geralmente depois dos 20 centímetros de diâmetro”, diz o especialista, que já diagnosticou tumores do tipo com até um quilo de peso. Nesse caso, o tratamento – cirúrgico e terapêutico – servirá apenas para aumentar a sobrevida do doente.
Os sintomas do tumor desenvolvido são tosse, dificuldade de respirar – “O tumor comprime a árvore respiratória”, explica o médico – , dificuldade de deglutir e dores torácicas. Antes que a sintomatologia apareça, no entanto, o tumor pode ser identificado. “Apenas por meio de uma radiografia do tórax. O que, aliás, poderá também diagnosticar problemas nos pulmões”, adverte Cláudio Gomes. “Uma simples radiografia pode salvar uma vida.”
Outra forma mais precisa de identificar o tumor é por meio de uma tomografia computadorizada do tórax. “Esse exame pode identificar o tumor em estágios iniciais que a radiografia, talvez, não consiga detectar”, diz o oncologista Evyo Abreu e Lima. “A radiografia, no entanto, tem a vantagem de ser mais simples e barata. Ela pode verificar os alargamentos do mediastino”, completa.
O tumores radiografados podem ser benignos ou malignos. Um câncer como um linfoma no mediastino, por exemplo, terá um tratamento quimioterápico (que consiste na aplicação de drogas para reduzir o tumor). “Entre 70% e 80% dos casos, entretanto, são resolvidos com tratamento cirúrgico. Operei pacientes com tumores razoáveis e que hoje estão saudáveis, praticando esportes”, diz o médico. Pessoas com idade inferior a três décadas de vida devem realizar exames radiográficos pelo menos uma vez por ano. Pessoas mais velhas, recomenda o médico, devem fazer o exame a cada seis meses.