LG_jc.gif (3670 bytes)

SEXO
Confissões eróticas dominam a Web

por SUZY CAPÓ
Do No.com

“Marina” é o pseudônimo de um internauta que relata na rede as aventuras sexuais de um casal, sob a perspectiva da esposa. Seus contos figuram entre os mais votados em um site totalmente voltado para o gênero. Como milhares de outras pessoas, “Marina” encontrou na rede um canal de expressão para suas fantasias, que são compartilhadas por milhares de internautas.

Os chamados contos eróticos têm na Internet uma audiência maior do que se pode imaginar. No Mix Brasil, onde não faltam imagens de sexo explícito e nu frontal, classificados e chats apinhados de gente disposta a tudo, a seção Contos Eróticos é a segunda mais acessada. No último mês de julho, quando o conteúdo do site estava aberto para qualquer visitante, a seção foi para o posto normalmente ocupado pelas imagens pornográficas, atingindo quase dois milhões de page-views.

“É um serviço que todo veículo que se preste a cobrir a sexualidade tem de oferecer”, esclarece o diretor de conteúdo do Mix Brasil André Fischer, que recebe mais de 100 relatos de internautas por semana. Para ele, a seção de contos eróticos não só aumenta a audiência do site como estimula a formação de uma comunidade. “Eles formam uma espécie de subgrupo entre os usuários: trocam e-mails, conhecem pessoas e tornam conhecidas as suas produções ‘literárias’”.

Não é preciso escrever para sites com a visibilidade do Mix Brasil para se projetar na rede. O Casa da Ana recebe cerca de 600 visitas diárias, um número expressivo para uma página hospedada na comunidade YahooGeoCities. A receita do sucesso foi descoberta por um acaso. “Um dia publiquei um conto erótico na Internet e recebi tantos e-mails que resolvi fazer meu próprio site, com meus relatos e os de visitantes”, conta Ana. Antes, ela havia criado uma página de conteúdo “sério”, que passou meses sem receber uma alma virtual.

Ainda que não seja propriamente uma novidade, a proliferação dos contos eróticos não deixa de ser surpreendente em uma mídia que oferece tantos recursos e possibilidades de entretenimento quanto a Internet. Por que gastar tempo lendo histórias fantasiosas quando se pode assistir por meio de uma câmera indiscreta a homens e mulheres em situações tão excitantes quanto aquelas descritas em relatos freqüentemente repetitivos e repletos de erros de ortografia?

“Os contos dão mais asas à imaginação”, explica Silvio Araújo, professor da rede pública de ensino. Ao contrário do que faria com seus alunos, o professor dá nota máxima aos textos que não seguem as normas da língua portuguesa. “Eles dão a impressão de que a pessoa viveu aquela experiência”, diz.

As técnicas de sedução nem sempre correspondem às regras gramaticais, mas surtem o efeito desejado. “Esses contos realmente mexem com a libido. Eu sempre fico excitada quando leio um”, comenta a internauta Cristina Camargo, no weblog Delícias Cremosas.

O público que freqüenta os chats de sexo não parece ser exatamente o mesmo que lê e escreve. “Quem está num chat quer uma coisa rápida, não tem paciência para ficar escrevendo, mandando e só depois recebendo respostas de seus contos”, observa Ana. No entanto, alguns aspectos verificados nas salas de bate-papo podem ser encontrados na maior parte dos relatos, tais como descrições físicas com riqueza de detalhes e geralmente calcadas nos padrões vigentes de beleza.

Os parceiros assumem papéis variados e orientam a distribuição dos contos em categorias como fetiches, heterossexuais, gays, orgias, travestis, zoofilia, lésbicas, incesto, sadomasoquismo e até necrofilia. De acordo com Fischer, chega também à caixa de mensagens do webmaster um número impressionante de contos envolvendo menores de idade. Esses normalmente ficam fora da seleção para evitar problemas judiciais.

Personagens de TV e celebridades também fazem parte das fantasias sexuais dos escritores, é lógico. Ainda que não estejam tão disseminados quanto nos Estados Unidos, os fanfictions em português aparecem tanto entre os contos publicados em sites maiores quanto em páginas pessoais. No Mix Brasil, Chandler e Joey, do seriado “Friends”, alcançam um grau de intimidade que deixaria seus outros amigos bastante enciumados.

Danados que são, os Backstreet Boys não usam camisinha nos contos homoeróticos de Hanger. No entanto, os preservativos não são artigos tão raros nos relatos gays, aparecendo ora atenuando a transgressão, ora conferindo verossimilhança à trama. Já nas aventuras heterossexuais é mais difícil encontrar alguém empenhado nos métodos de prevenção à Aids e outras DSTs.

De uma forma geral, gays e heteros se divertem da mesma forma, alternando-se entre os papéis de ativos ou passivos em histórias envolvendo os riscos que dão o prazer adicional das boas aventuras. E ao mesmo tempo que atiçam a libido de outros internautas, os autores anônimos vão liberando suas próprias fantasias, representando por meio de seus contos personagens que jamais interpretariam na vida.

A inversão de papéis, tão complicada na “vida real”, é um dos grandes trunfos do sexo na Internet, especialmente nos contos eróticos. Nos encontros sexuais que o casal mantém fora do espaço virtual, “Marina” talvez nunca consiga desfrutar dos prazeres que ele proporciona à esposa em seus relatos. No entanto, assumindo na ficção o papel da mulher ele certamente realiza tudo o que sonhou para si. Mas isso, como conta o conto, já é uma outra história.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 09.09.2001
Domingo