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PUBLICAÇÃO
Histórias para acordar você

Crianças do setor de Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz lançam um livro de contos e relatos que às vezes funcionam como um soco no estômago

por CÍCERO BELMAR
Editor Executivo

Agulhas, quimioterapia, agulhas, febre muito alta, agulhas, cabelos caindo. É tanta dor na vida de uma criança com câncer que elas têm medo até de sonhar. Mas, os médicos e voluntários do Setor de Oncologia Pediátrica do Hospital Oswaldo Cruz inventaram um projeto mais poderoso do que qualquer remédio para auxiliar no tratamento. É o ‘coquetel’ formado por solidariedade e arte que eleva a auto-estima, estimula a capacidade artística e dá forças para enfrentar a doença. O mais recente fruto desse projeto é o livro A Fantástica História dos Contadores de História do Reino Onde Tudo é Possível – Histórias para Acordar os Homens, que será lançado no dia 12.

Escrito pelas próprias crianças, com 70 páginas e 19 contos, o livro tem relatos às vezes inocentes, ingênuos, outras vezes são como um soco no estômago. Ninguém conclui indiferente a leitura do drama de Vanilda, 17 anos, que em 99 descobriu estar com leucemia. E tudo começou com uma simples dor de ouvido. A narrativa causa desespero, especialmente quando descreve uma febre de 43 graus e suas pernas começaram a se mexer sozinhas. Três pessoas tiveram que segurá-las. Em outra história, há um certo lirismo: “Paulinho enterrou Piaba perto da janela do seu quarto e, todas as noites, antes de dormir, contava ao melhor amigo como foi seu dia”, do conto de Leandro, 10.

A morte está sempre rondando os personagens das histórias e não podia ser diferente, já que elas foram feitas por pessoas aparentemente sem perspectiva, que sentem o cheiro do éter de um hospital o tempo todo. “Quando Paulo me procurou para ajudá-lo a escolher o nome do livro pensei naqueles meninos e me veio à cabeça o título. Ele traduz o que se sente ao entrar no Oswaldo Cruz e ver aquelas pessoas. Ali, tudo é possível”, diz a escritora Adriana Falcão, entusiasta do projeto.

MÉDICO – De fato, quem vê as crianças refazendo a vida, sorrindo, entende o título dado por Adriana: ali é o “reino onde tudo é possível”. O Paulo a que ela se refere é o médico Paulo Barreto Campello, que criou e dirige o projeto A arte na medicina às vezes cura, de vez em quando alivia, mas sempre consola. O projeto (ver matéria vinculada) acaba a relação gelada médico-paciente e inaugura nela a sensibilidade, torna-a humanitária. Um dos segmentos do projeto é a Oficina de Contos de Fada, que gerou o livro. “O mais fantástico do livro não são os contos propriamente ditos, mas dentro de uma enfermaria, com perspectiva de morte iminente, essas crianças mostrarem que ainda há possibilidade de criar”, declara Paulo.

O subtítulo do livro – Histórias para Acordar os Homens – é um alerta. Segundo o mentor e diretor dos projetos artísticos e culturais do Setor de Oncologia Pediátrica, “muita gente está alheia ao sentido humanitário e precisa acordar”. O livro, porém, não é só de histórias para crianças.

Paulo Barreto Campello e a arteterapeuta Kika Freyre escrevem os prefácios. A primeira apresentação ensina como desenvolver projetos de oficinas de arte em enfermarias. A segunda, mostra como se pode introduzir num hospital uma Oficina de Conto de Fadas. A idéia é criar multiplicadores, ou seja: será um livro didático, para médicos, psicólogos, etc.

O PROCESSO – Reproduzir os projetos de arte é uma tarefa que depende, principalmente, de gente de boa vontade. No caso da Oficina de Contos de Fada funciona da seguinte maneira: a arteterapeuta Kika Freyre vai à enfermaria uma vez por semana e as crianças escolhem a história que querem ouvir. Ao final, são questionadas com que personagem se identificaram ou qual o final que dariam se fossem o autor. Depois, a arteterapeuta provoca as crianças a inventarem uma história nova. Os contos de fada incentivam os meninos a fazer seus relatos. Através deles, descobrem não só a beleza, como despertam o lado emocional e crítico, sentindo-se estimulados à criatividade.

Nesse processo, Kika teve a preocupação de anotar os relatos das crianças. E assim o livro foi composto, com contos de meninos entre 6 e 17 anos. Ele tem ilustrações de Geovane Quirino do Nascimento, hoje com 25, e que teve câncer na infância. “Por meio da criação das histórias, a criança expõe suas angústias, seus medos do dia seguinte, principalmente da morte. Ah, sim. Um dos contos de que elas mais gostam é o do Chapeuzinho Vermelho”, diz Kika, explicando: as crianças vêem uma relação entre o câncer e o lobo mau, que mata a menina e a avó do conto de fadas. E todas querem ser fortes para destruir o lobo.

Lançamento: dia 12, às 10h, no Hospital Oswaldo Cruz. Preço do livro: R$ 20,00; telefone do GACC 3423.7633; kika@fgf.org.br

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Jornal do Commercio
Recife - 09.09.2001
Domingo