Dos 19 autores do livro, três morreram. As estatísticas mostram que pelo menos 400 crianças – principalmente do interior de Pernambuco e da Paraíba – passaram ou estão em tratamento no Setor de Oncologia Pediátrica do Hospital Oswaldo Cruz. E que 80% delas ficaram curadas. O tratamento dura em média cinco anos, tempo de muito sofrimento, e que seria muito mais chocante se não houvesse o projeto A arte da Medicina à vezes cura, de vez em quando alivia, mas sempre consola, criado pelo médico Paulo Barreto Campello.
É um projeto que garante, além do tratamento médico, o desenvolvimento da criatividade, estimulando a produção artística adormecida em cada um dos doentes. “É um processo de humanização da medicina”, justifica o médico. As suas idéias inspiraram a escritora Adriana Falcão, que escreveu um episódio do seriado Mulher, apresentado pela TV Globo no ano passado. O projeto, que tem total apoio da Universidade de Pernambuco (UPE), também tem como finalidade contribuir na formação cultural e humanística do estudante da área de saúde.
O primeiro projeto de humanização da medicina surgiu há cinco anos, quando se realizou o Primeiro Encontro Médico Cultural de Pernambuco, para que os profissionais de medicina pudessem divulgar suas manifestações artísticas. Do encontro surgiu a Orquestra de Médicos do Recife, que tem por objetivo levar a música aos doentes de hospitais públicos. Os resultados foram muito positivos e assim surgiu o projeto Música é Vida, numa parceria da Universidade de Pernambuco e do Conservatório.
Há três anos, surgiu a Escolinha de Iniciação Musical e Artes do Oswaldo Cruz para as crianças portadoras de câncer. Elas recebem aulas de percussão, bateria, flauta, violino, violão, teclado, canto, com apoio do Conservatório. “É uma forma de o tratamento ser menos doloroso. Junto com os esquemas prescritos de quimioterapia, elas recebem também carinho, arte”, diz Paulo Barreto Campello. Há aulas também de desenho, pintura, escultura, fotografia, dança, teatro, teatro de mamulengo.
As aulas são na escolinha e, portanto, as crianças da enfermaria ficam impossibilitadas de assisti-las. Por isso, foi criada há um ano a Oficina de Contos de Fadas para atender aos doentes que são obrigados a permanecer em seus leitos. Num texto escrito por Paulo Barreto Campello, médico mentor dos projetos, “as aulas têm como finalidade não só ajudar no processo de cura, alívio, consolo e expressão dos sentimentos em verdadeira terapia, mas, sobretudo, propiciar a esses pacientes terem a oportunidade de ingressar numa futura profissão. Essas atividades modificam a visão da instituição hospitalar que já não é mais o locus do sofrimento e da angústia, mas também, de lazer e realização pessoal”. (C.B.)