por KLEBER MENDONÇA FILHO
Este ano, o cinema americano transformou em romance e diversão ‘o dia que viveria na infâmia para sempre’ a que, até ontem, havia sido a maior agressão que os Estados Unidos já sofreram na sua história – o ataque japonês à base de Pearl Harbor, em 1941. Eventos bem maiores que a ficção chegam agora para chocar o mundo via um novo ataque ainda mais brutal aos americanos em seu próprio solo, suplantando Pearl Harbor, seja o fato histórico, sejam nas imagens de morte e pandemônio espetacularmente recriadas pelo filme, atualmente a maior bilheteria do ano, no mundo. Com a onda de terror que varreu a América, na manhã de terça-feira, a ficção torna-se bem pequena diante da realidade.
Com as imagens transmitidas ao vivo da destruição das torres gêmeas do World Trade Center e o ataque certeiro ao prédio do Pentágono, em Washington, a capacidade industrial que os americanos têm de fabricar imagens de pesadelo por meio do seu cinema parece, afinal, pequena.
Observando estupefatos a carnificina pela TV, uma estranha sensação de familiaridade instalava-se, em grande parte, por causa da nossa bagagem de imagens artificiais americanas apresentadas no passado. Essa impressão sai ainda mais fortalecida por terem sido ataques a ícones de um povo, representações concretas do ser e do agir americano, do civil e do militar. Com isso, os Estados Unidos, como cultura, foram atingidos em cheio no coração.
As torres gêmeas do WTC e o prédio do Pentágono, em Washington, são estruturas arquitetônicas plenas de identidade, fotogênicas, intrigam o olhar pela forma e despertam reflexão pelos seus conteúdos. Um simboliza o capitalismo puro (World Trade Center significa Centro Mundial de Comércio) e o outro, o militarismo na sua essência, numa nação que se apresenta como guerreira.