Os alvos escolhidos para o atentado terrorista são dois símbolos do poderio econômico e militar norte-americano
por PAULO SOTERO
WASHINGTON - Numa ação coordenada, tendo como armas grandes aviões comerciais seqüestrados, carregados de combustível, terroristas lançaram, ontem, um devastador ataque que tumultuou os Estados Unidos. A exemplo das armas usadas - Boeings 767 e 757 da American e United Airlines, as duas maiores empresas aéreas americanas - os alvos escolhidos para os atentados foram símbolos do poderio econômico e militar dos EUA: as torres gêmeas World Trade Center – de 110 andares, no coração do distrito financeiro de Nova Iorque – que desabaram depois de serem atingidas por dois aviões, com 18 minutos de intervalo; e o Pentágono, sede do Ministério da Defesa e das Forças Armadas, em Washington.
À tarde, com hospitais de Manhattan lotados e em desesperada busca de doares de sangue, as vítimas eram estimadas em milhares. Cerca de 50 mil pessoas trabalhavam no World Trade Center e outras 150 mil transitavam pelos prédios, que têm no subterrâneo um entroncamento de trens urbanos. Autoridades calculam que pelo menos 20 mil pessoas haviam chegado a seus escritórios quando o primeiro avião bateu na torre sul. O WCT foi alvo de um carro-bomba em fevereiro de 1993. Os terroristas, que foram presos e condenados, queriam fazer uma torre desabar sobre a outra.
Em Washington, ontem, foi confirmada uma explosão de carro-bomba na esplanada dos museus e monumentos, causando pânico e a evacuação dos prédios do centro. Surgiram agentes federais em roupa de combate guardando a Casa Branca e outros centros do poder. As sirenes dos veículos de emergência traduziam a sensação de vulnerabilidade do país.
O presidente George W. Bush, que estava visitando uma escola na Flórida quando ocorreu o primeiro atentado, às 8h45 (horário local), disse que os EUA caçarão e punirão os autores do que chamou, inicialmente, um aparente ataque terrorista. Por decisão do serviço secreto, que disse não poder garantir a segurança do presidente na Casa Branca, Bush voou para a base aérea de Barksdale, em Louisiana, onde leu uma mensagem à população: “A determinação de nossa nação está sendo testada, mas não tenham dúvida, nós mostraremos ao mundo que passaremos este teste”, disse.
Logo depois, o Air Force One decolou, com escolta de caças, para um destino não revelado - o que reforçou a sensação de que a situação estava longe de ser controlada. À tarde, o Boeing presidencial pousou na base aérea de Offut, em Nebraska, próxima ao antigo comando aéreo de Omaha, usado na guerra fria.
As forças armadas entraram em estado avançado de prontidão e a marinha despachou dois porta-aviões para as proximidades de Washington e Nova Iorque. Os vôos internacionais com destino aos EUA foram desviados para o Canadá, os aeroportos suspenderam suas operações e as fronteiras foram fechadas. O Governo instruiu as usinas nucleares e termoelétricas e as refinarias de petróleo a operar em estado de alerta máxima, serviços de trens foram interrompidos e estradas foram fechadas.
O choque provocado pelo ataque não permitia avaliar todas as implicações políticas para os EUA e suas relações com o mundo. O secretário de Estado, Colin Powell, que estava no Peru em uma Assembléia da Organização dos Estados Americanos (OEA), resumiu a catástrofe num discurso, antes de voar para Washington. “Uma tragédia terrível abateu-se sobre minha nação, mas também sobre todas as nações do mundo e todos aqueles que acreditam na democracia”, disse Powell, ex-general do exército que comandou as Forças Armadas na guerra contra o Iraque, há 10 anos.
Políticos e diplomatas começaram a falar em reação. “A retaliação precisa ser maciça e não deve discriminar grupos terroristas, mas Osama Bin Laden tem que estar na lista”, sugeriu o ex-secretário de Estado Lawrence Eagleburger. O ex-embaixador dos EUA na ONU, Richard Holbrooke, disse que simpatizantes de grupos terroristas não devem ser poupados.
As primeiras suspeitas recaíram sobre Bin Laden, milionário saudita que os EUA responsabilizaram por outros ataques terroristas. Laden não esconde sua hostilidade pelos EUA e declarou em 98 que qualquer cidadão americano seria um alvo legítimo. Segundo informações, há 15 dias os serviços de inteligência obtiveram informações de que aliados de Laden falavam sobre um ataque a alvos americanos.