SÃO PAULO – O Duende Verde que, desde 1982, visita a cada três horas os reservados gabinetes do Departamento de Estado, da Casa Branca e do Pentágono, falhou. Nenhum de seus informes mais recentes, alguns dos quais vinham com a tarja ‘Apenas para os olhos do Presidente’, mencionava a preparação da série de atentados terroristas, realizada ontem. Ataques esses tão graves, que levaram os Estados Unidos a adotar o que a defesa americana chama de nível 4 de prontidão – apenas um grau abaixo do Defcon-5, que só viria a ser utilizado no caso de uma guerra nuclear.
O programa GD foi criada longo de 12 anos a um custo acumulado de US$ 1,8 bilhão – para receber, centralizar e distribuir as informações coletadas no mundo inteiro pela sofisticada comunidade inteligência da mais poderosa potência militar de todos os tempos. São 13 agências principais, lideradas em certa medida pela Agência Nacional de Segurança (NSA), que mobiliza satélites de escuta, recursos de rastreamento eletrônico de telecomunicações, aviões e navios de monitoramento remoto.
A NSA é capaz de ouvir as reuniões do Kremlim e de selecionar o número de um único telefone celular em meio a milhões de outros para ouvir o conteúdo das chamadas, ainda que a estação base desse aparelho estivesse instalada em Bangcoc, na Tailândia, e o usuário sentado em um café de Bogotá, na Colômbia. (Foi assim que Raul Moreno, um dos líderes do colombiano Exército de Libertação Nacional (ELN), acabou sendo localizado e preso no dia 5 de abril, quando negociava pelo telefone o resgate de um empresário seqüestrado pela guerrilha).
O Duende Verde é um programa automático que envia, sistematicamente, para os computadores das três mais altas autoridades dos Estados Unidos relatórios consolidados e ordenados pelo grau de importância. O ex-presidente Bill Clinton costumava receber o material pessoalmente por meio de um processador de bolso, um palmtop. Acredita-se que o programa seja abastecido por uma rede de 5 mil pontos de captação, incluídos nesse total os agentes de campo.
No suporte a essa estrutura existem 300 analistas e um grande número de cenaristas que trabalham ininterruptamente consolidando os dados. Oficiais militares e diplomatas com formação em assuntos estratégicos encarregam-se de produzir projeções. Há ainda outros fontes a disposição do sistema controlado pela NSA, como a avaliação de tendências políticas e econômicas.
Quando essa malha fina capta sinais de ameaça, determinadas providências de rotina são tomadas. Os aeroportos passam a ter maior vigilância, as comunicações são monitoradas e determinados grupos de pessoas ganham acompanhamento das suas atividade, como parte da rotina do trabalho.
“Não foi o que ocorreu dessa vez. Nenhum alerta avançado foi captado pelas 13 agências civis e militares”, declarou o coronel da reserva E. Eldrige, ex-integrante dos serviços de inteligência do Comando Sul do Pentágono, para quem a grande questão agora é descobrir como é que não foi percebida uma ameaça de ataque do porte da que foi vista ontem.