No mergulho de superfície, no Rio Sucuri, o melhor é deixar a água comandar o passeio e flutuar junto aos peixes
A cena é meio insólita e até engraçada: vê-se um grupo de ‘urbanóides’ vestidos com roupas de mergulho, máscara e snorkel (equipamento usado para respiração sob a água) montados em um pequeno caminhão, no meio de uma fazenda criadora de gado, em pleno Mato Grosso do Sul. É assim, de forma quase surreal, que começa o passeio no Rio Sucuri, localizado numa fazenda com o mesmo nome. Observa-se que todos sentem-se verdadeiros ‘exploradores’, aventureiros natos, depois que passam a envergar o uniforme de neoprene (o uso é obrigatório. Mesmo sentindo um calor infernal, você vai agradecer estar usando a roupa mais tarde, como verá logo mais).
Não pense que o nome um tanto assombroso do rio se deve ao fato de várias cobras habitarem seu interior. A explicação é poética e, portanto, confortante: visto do alto, o rio, bastante sinuoso, lembra bastante uma cobra. Sua transparência, que faz entrever a rica flora e ainda peixes de diversos tamanhos, mesmo lá de cima, também contribui para o nome de batismo. O acesso ao local é feito por uma trilha belíssima, desenhada numa parte da mata ciliar da fazenda. Ao chegar a uma pequena ponte de madeira, já dá para se ter uma idéia do que vem pela frente: no braço do rio cristalino que passa por ali, dezenas de peixes disputam o milho (sim, milho) oferecido pelo guia.
Próximo à ponte, um mirante, construído ao redor de uma antiga figueira, é, de longe, um dos locais mais especiais de Bonito. É daqui que se vê a inesquecível nascente do Rio Sucuri (que possui aproximadamente dois quilômetros). O ‘inesquecível’ não é, nem de longe, um mero adjetivo, força de expressão ou simples exagero: é impossível não ficar mudo frente a paisagem à sua frente. A nascente (onde é proibido mergulhar), é hábitat de várias espécies de peixes. Como o rio possui pouquíssima profundidade, a observação dos animais torna-se ainda mais fácil – e bonita.
Da nascente do Sucuri, percorre-se mais um pedaço de trilha até chegar aos barcos que levarão ao local do mergulho. É hora de livrar-se de sapatos, bolsas e tralhas afins. Neste passeio, o guia acompanha, de barco, todo o grupo de ‘mergulhadores’ (leia-se urbanóides vestidos de desbravadores). Quem não tiver coragem de encarar a aventura, pode ficar junto ao guia e observar tudo do barco. Mas atenção: a dica é recomendável apenas para quem tem alguma fobia relacionada à água. O rio, sem dúvida, é muito mais bonito para quem está sob ele.
BANHO DE ÁGUA FRIA – Agora, é hora de cair na famosa água. Mas prepare-se, especialmente se você é nordestino: aqui, não existe aquele clichê “as águas mornas” das praias nordestinas. A temperatura média da água fica em torno de 15 graus Celsius, e, no inverno, pode chegar a oito. Por isso mesmo, é bom que você esteja usando a roupa de mergulho (aquela feita de neoprene, lembra?), ideal para ajudar na flutuação e para manter a temperatura do corpo mais alta. Aqui, não é necessário nadar (nem recomendável, já que a movimentação ajuda a espantar os peixes): a própria correnteza leva o ‘desbravador’ rio abaixo, num percurso total de cerca de 750 metros. Durante a descida, vêem-se cardumes de enormes dourados, que nadam em sua direção como se fossem esbarrar no seu rosto. Não se assuste: eles desviam e seguem o caminho sem dar muita bola para você. O solo do rio, riquíssimo em material calcário, reflete diferentes cores de acordo com a luminosidade solar e a profundidade (que não passa dos três metros): ele é ora azul, ora branco, ora laranja. A flutuação dura cerca de 45 minutos e, caso você canse ou não se sinta bem em determinado momento, basta virar de costas e continuar a flutuar. (Lembre-se: o guia sempre estará num barco um pouco mais atrás do grupo.) No final, ao chegar a um pequeno deque, roupas e sapatos sequinhos estarão à sua espera, assim como o transporte de volta à sede da fazenda. (F.M.)