Esculturas de um sacerdote-artista falam da Terra como um grande ventre para onde tudo volta para recomeçar
FLÁVIA DE GUSMÃO
Mestre Didi, 80 anos, é um sacerdote-artista, e é claro que ele é da Bahia. Em que outro lugar poderia surgir tal fusão? Sumo-sacerdote de cultos ancestrais, ele não dá entrevistas sobre a exposição que o traz ao Recife – Poesia Mítica e Contemporaneidade –, que tem abertura hoje, às 20h, na Aria Galeria de Arte. Quem o faz em seu lugar é a antropóloga Juana Elbein dos Santos, sua esposa, que explica a razão dessa suposta timidez de Mestre Didi: “Como o iniciado que é, ele não pode se expressar sobre si mesmo. Precisa de uma recodificadora, que é aquela pessoa que traduz os códigos do sacerdote para uma sociedade mais ampla”, ensina Juana.
Não que a arte de Mestre Didi precise exatamente de uma tradução. Suas 24 peças que poderão ser vistas até o dia 27 de dezembro falam com sua força vital, que não é africana, não é folclórica e não é exótica: é brasileira, é mítica e é contemporânea.
De formas e cores são feitas as esculturas de Mestre Didi – como, de resto, todas as esculturas. São feitas também de búzios, contas, palhas, ‘nervuras’ de palmeiras e tecidos. Cada peça é única e irreproduzível, resultado de recriações permanentes que falam do filho de um país pluricultural.
A importância da vinda de uma exposição como esta do Mestre Didi reside, justamente, no redescobrimento da complexidade e riqueza cultural do Brasil. “Ainda é complicado ver a contemporaneidade de uma estética que não tem origens européias. Esse tipo de arte normalmente é encaixado no rótulo de folclórico ou exótico”, afirma Juana Elbein.
Os elementos apresentados nas esculturas de Didi se repetem como notas numa sinfonia, inacabada porque a história da Terra (como um grande ventre fecundável) e dos elementos masculinos e femininos que perpetuam um ciclo não tem mesmo fim.
Segundo Juana Elbein, o conjunto da obra de Didi faz uma representação coletiva do renascimento, unindo a forma pontiaguda que representa o masculino, a forma arredondada que simboliza o feminino e a serpente mítica.
SEM CAMUFLAGEM – Segundo Juana Elbein, há um desconhecimento conceitual da cultura afro-brasileira. “O processo de recriação da cultura africana no Brasil foi muito particular. A continuidade desse processo se deu com recriações permanentes. Por isso é um País que não se reconhece nas suas raízes mais profundas”, situa.
Para Juana, é importante a vida da exposição ao Recife pelos fortes laços que a cidade mantém com a tradição africana no Brasil.
Aria Galeria de Arte – Av. Canal de Setúbal, 766, Piedade, fone: 3341.1014