LG_jc.gif (3670 bytes)

SAÚDE
DOR

Definida como uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada ou não à uma lesão, a dor é hoje o maior problema de saúde pública em todo o mundo

JÚLIA NOGUEIRA

Dois terços dos pacientes que procuram os médicos queixam-se de dor. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), esse é hoje o maior problema de saúde pública em todo o mundo.

A fundadora e coordenadora do Ambulatório da Dor do Hospital das Clínicas (HC), a anestesiologista e algologista (especialista que estuda e trata a dor), Dra. Maria Angela de Lima, explica que a definição médica internacional para a dor é de uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada, ou não, à uma lesão.

O presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), o algologista Luciano Braun, explica que existem dois tipos de dor: a aguda e a crônica. A primeira é uma reação fisiológica normal a uma agressão ou lesão ao organismo (corte ou pancada, por exemplo). Se não for tratada, pode tornar-se crônica.

Já a dor crônica é patológica (anormal), não tem função biológica e, muitas vezes, não apresenta relação de causa e efeito. É considerada uma doença crônica que, portanto, deve ser tratada pelo tempo que for necessário. Ocorre em casos de enxaqueca e em processos crônicos degenerativos como artrite reumatóide, osteoporose e câncer.

Em todo o corpo, existem terminações nervosas sensíveis a estímulos capazes de iniciar a dor que alteram o funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), levando a quadros de hipertensão, taquicardia, e alterações nas funções dos rins e dos aparelhos digestivo e respiratório, além de causar alterações emocionais e de comportamento, como depressão, isolamento e afastamento do trabalho. A presença da dor também pode contribuir para a piora do quadro de pacientes.

Uma das doenças crônicas que tem a dor como principal característica é a fibromialgia ou a síndrome fibromiálgica, como vem sendo mais recentemente chamada. Citada desde o século 19, a doença só começou a ser adequadamente diagnosticada a partir de 1991 e ainda não se chegou à cura, "mas é possível controlar", afirma Braun.

As características são dor generalizada crônica e presença de pontos dolorosos, o curioso é que a dor aparece sem que esteja ocorrendo inflamação nos músculos ou articulações. Os principais sintomas são cansaço, dores musculares, rigidez nas articulações, alterações no sono, dor de cabeça e inflamação na bexiga.

A origem da doença ainda não foi totalmente esclarecida, mas já é possível afirmar que está relacionada a deficiências de hormônio do crescimento, alterações no sono e no sistema que modula a intensidade da dor. Segundo Braun, o estresse pode ser um fator que colabora para o desencadeamento e manutenção dos sintomas, além de também da presença de um componente genético.

Por motivos ainda desconhecidos, cerca de 80% a 90% dos pacientes que têm a síndrome são mulheres. A artista plástica e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Adília Morais, descobriu a doença há seis anos. "Comecei a sentir uma dor na perna esquerda, que depois subiu para a coxa e o quadril", explica. "Não existe justificativa para a dor, ela simplesmente aparece. Deixei de dirigir e evito ficar muito tempo sentada. Hoje eu continuo tendo vida social e fazendo quase tudo, mais com bem mais sacrifício", completa.

O objetivo do tratamento da doença é controlar a dor e a fadiga com a melhoria do padrão de sono, tratamento da função orgânica, controle das alterações de humor e a reintegração social. Isso pode ser alcançado com o uso de medicamento, tratamento fisioterapêutico e psicoterápico.

Os médicos dizem que, por ser de caráter multifatorial, a dor deve ser encarada e tratada de maneira multidisciplinar, em um processo que envolve fisioterapeutas, neurologistas, fisiatras, psicólogos e profissionais de diversas especialidades.

Só nos Estados Unidos, são gastos anualmente US$ 80 bilhões de custos diretos e indiretos com o tratamento da dor crônica. Cerca de 25% a 30% da população norte-americana sofrem com a doença e, de acordo com o Braun, esse índice não é diferente nos outros países.

Em janeiro deste ano, os Estados Unidos incluíram a dor como o quinto sinal vital (precedido por pulso, temperatura, pressão e respiração). Dr. Luciano explica que a SBED pretende fazer o mesmo nos hospitais brasileiros. No Recife, por enquanto apenas o SOS Mão adotou o sistema.

Outra prioridade é o credenciamento de centros de especialização em dor em todo o País e a inclusão do assunto nos currículos de graduação e pós-graduação dos profissionais de saúde.

Apesar de começar a despontar como assunto de extremo interesse, a dor ainda é um terreno pouco conhecido pelos profissionais de saúde. "Dos pacientes hospitalizados, 80% não têm um tratamento efetivo da dor. Existe uma tendência do profissional de subestimar o que o paciente está sentindo", afirma Drª Angela. "O paciente não deve aceitar que o médico diga que é preciso aprender a conviver e agüentar a dor", alerta Braun. "Não sentir dor é um direito de todo e qualquer paciente", determina Drª. Angela.

Segundo a OMS, os pacientes brasileiros ainda sofrem muito com o problema. Por esse motivo, o País está inserido em um movimento nacional, que visa prestar um serviço de utilidade pública à população com serviços de qualidade de tratamento da dor em todo o país.

No Recife, esse serviço já é disponibilizado pelo HC, Hospitais Barão de Lucena (serviço de oncologia), Oswaldo Cruz e em alguns consultórios particulares como o SOS Mão e a Clínica da Dor do centro médico do Shopping Boa Vista (Seven).

Serviço

Hospital das Clínicas: 3454..3633

Hospital Barão de Lucena: 3453.3566

Hospital Universitário Oswaldo Cruz: 3413.1354 /1359

SOS Mão: 3423.9595

Seven: 3222.2045

Leia mais: www.hsc.missouri.edu/~fibro/fm-pt.html

www.fibromialgia.net/principal.htm

www.shn.net

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 09.12.2001
Domingo