A abertura da sinagoga Kahal Zur Israel é só o começo: o caminho dos judeus no Estado já começa a ser refeito, agora turisticamente
por FABIANA MORAES E BRUNO ALBERTIM
A história e o legado judaico em Pernambuco é inversamente proporcional ao tempo que a comunidade desfrutou da plena liberdade religiosa no Estado. Nos efêmeros 24 anos de dominação holandesa, os cerca de 1.500 judeus que habitavam Recife puderam realizar suas cerimônias sem medo do terror gerado pela perseguição da Santa Inquisição. A herança deixada, porém, é hoje uma das mais significativas e simbólicas do povo judeu na região e, sem exageros, no mundo: a Kahal Zur Israel (Congregação Rochedo de Israel), a primeira sinagoga das Américas, localizada na Rua do Bom Jesus, aberta ao público na última terça (4). A Kahal é ‘apenas’ a principal atração dessa histórica passagem. Durante a ocupação portuguesa, os cristãos-novos (judeus convertidos, geralmente à força, ao Catolicismo) também puderam imprimir suas marcas na memória local.
A própria comitiva de Cabral já trazia em suas naus alguns cristãos-novos como Gaspar da Gama, provavelmente o primeiro judeu a pisar em solo brasileiro. Pouco tempo depois, em 1542, Diogo Fernandes e Pedro Álvares Madeira, também judeus convertidos ao Catolicismo, recebem terras em Pernambuco e criam o Engenho Camaragibe, na época chamado de Santiago. Diogo, marido da mítica Branca Dias (ler matéria na página 6), promovia dupla religiosidade e seguia os princípios das tradições judaicas, celebrando-as secretamente em seu engenho. Camaragibe chegou a ser conhecida como Terra das Sinagogas, numa mostra da força judaica, ainda que silenciosa, na região.
Além do casco antigo do Recife e de Camaragibe, outros locais denunciam os costumes judeus em Pernambuco, como o Pina e Olinda, que tinha em sua Cidade Alta uma grande concentração desse povo. O roteiro por esses bairros e cidades é uma das mais novas ofertas do turismo pernambucano: o Centro Cultural Judaico de Pernambuco, organizou um circuito onde é possível visitar os locais freqüentados pelos judeus e relembrar suas festas, costumes e dificuldades.
O circuito judaico pode não ser composto por monumentos (o único ‘visitável’, por enquanto, é a Kahal Zur Israel), mas é, sem dúvida, riquíssimo em história e fatos curiosos sobre esse povo que, durante um curto período histórico, deixou marcas indeléveis na Cidade Maurícia. A abertura da sinagoga traz à luz, felizmente, dados sobre uma comunidade que viveu sob a sombra do preconceito. “É preciso trazer essa história de volta”, diz a pesquisadora Tânia Kaufman, descendente de judeus e uma das idealizadoras do roteiro judaico em Pernambuco.