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RECIFE E MAURÍCIA II
O núcleo da fé judaica

O Recife guarda mais tesouros judaicos do que a Kahal Zur Israel. Pesquisas indicam que existia outra sinagoga no atual bairro de Santo Antônio (Maurícia). O primeiro cemitério judeu das Américas também foi detectado

Não há como negar que a Ilha do Recife, assim como Maurícia (também chamada na época de Ilha de Antônio Vaz, hoje o bairro de Santo Antônio) foram, durante a dominação holandesa os pontos mais ‘judeus’ de Pernambuco. Se hoje a afirmação ganha contornos mais definidos por conta da abertura da Kahal Zur Israel, é ainda mais emblemático dizer que Maurícia também guardava uma espécie de templo judeu, esse ainda não encontrado. Segundo o historiador José Alexandre Ribemboim, o templo religioso funcionava, na verdade, na casa de um ativista, Joshua Jesurn Haro. Outro fator simbólico é a certeza de que existia na região um cemitério judaico, no caso, o primeiro das Américas. “Vamos começar as escavações em breve”, diz o historiador.

O melhor ponto para começar essa jornada pela história é, sem dúvida, a própria Kahal Zur Israel. Aberta ao público na terça (4), a sinagoga promete ser uma das grandes atrações turísticas da cidade. Aqui, tem-se a idéia, logo na entrada, do sofrimento e também do apogeu do Povo do Israel em terras dominadas ora por Portugal, ora pela Holanda. Treze painéis bilíngües localizados no térreo contam a saga dos judeus durante os séculos 15 e 16. A reconstituição do mikve, o poço sagrado judaico, além de diversos fragmentos de cachimbos e louças, estão expostos no local. A excelente estrutura da sinagoga pode receber, diariamente, cerca de 500 pessoas.

Saindo da Kahal, siga para outro marco do período holandês na cidade: a simbólica ponte Maurício de Nassau, a primeira do Recife, construída pelo judeu Balthasar da Fonseca, que aceitou executar a obra por “240:00 florins e uma dádiva de 1:000 patacas em espécie para a sua esposa, no caso de vir a casar”. O contrato até hoje intriga os estudiosos, afinal, na época, Balthasar já beirava os oitenta e dois anos. Por isso, também é provável que que o real construtor da ponte fosse um filho de Balthasar. A confecção da ponte está cercada por diversas histórias. As obras, que começaram em 1642, foram interrompidas um ano depois. Os motivos não são muito claros: teria sido por incompetência do engenheiro ou por causa de uma cheia que arriscava a vida dos trabalhadores. O próprio Nassau se encarregou do término da ponte, utilizando dinheiro do próprio bolso e, somente no dia 28 de fevereiro de 1644, pode-se atravessar de Maurícia para o Recife “a pés enxutos”. Dois belos arcos estavam nas extremidades das pontes. Do lado do Recife, estava a Pontpoort (porta da balsa) e, do outro, a Pontstraat (Rua da Balsa). Os arcos, que em 1742 ganharam os títulos de arcos da Conceição e Santo Antônio, foram destruídos, lamentavelmente, em 1913 e 1917, respectivamente.

MARRANOS –Os primeiros judeus chegaram a Pernambuco na comitiva do donatário Duarte Coelho, fundador da capitania. Provenientes da Península Ibérica, muitos deles eram chamados de marranos, ‘batismo’ nascido na Espanha. Marrano era o judeu que, com medo do Santo Ofício, negava a sua religiosidade e deixava de se relacionar com outros judeus. Ainda assim, as comunidades espanholas desprezavam os ‘novos’ cristãos e os espionavam e perseguiam a todo momento. Foi essa perseguição que determinou a vinda do povo judeu até o Brasil, onde poderiam desfrutar de maior liberdade (o que aconteceu, de fato, até a chegada de um representante da Inquisição no Estado). O crescimento da população judaica no Recife e a crescente chegada de mais judeus durante o governo de Nassau provocaram protestos de desagrado por parte de deputados na Câmara de Olinda (1637) e na Câmara da Paraíba (1640). Com a retomada portuguesa toda essa exuberância econômica e social teve de ser deixada para trás. Os judeus saem fugidos do Recife, alguns, mais afortunados, conseguem vagas em navios, enquanto outros precisam se esconder pelo Sertão de Pernambuco. O que aconteceu após essa nova diáspora é bem conhecido: um navio perdido (das dezesseis embarcações que saíram do porto), transportando quatro casais, duas viúvas e treze crianças chega a Nova Iorque e ali funda-se a primeira comunidade judaica da cidade, que deve muito de sua prosperidade aos fugitivos do Recife. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 06.12.2001
Quinta-feira