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RECIFE E MAURÍCIA V
O Pina, ou a Ilha do Cheira-Dinheiro

“Declaro que tenho uns chãos no Recife, da banda do mar, no pontal do Pina junto às casas de Antônio Ferreira Rabele, que comprei ao capitão André Gomes Pena e a seu irmão, o Cheira-Dinheiro, por alcunha.” O testamento do general André Vidal de Negreiros (1678) não deixa dúvidas: o Pina, bairro da “banda do mar”, já possuiu um morador que, por sua provável avareza, foi denominado de ‘Cheira-Dinheiro’ pelos moradores locais.

Outros fatores que levam os pesquisadores a acreditar nessa existência são algumas ‘coincidências’. A primeira delas é o próprio nome do bairro: Pinah significa ‘esquina’ em hebraico, o que poderia ser uma clara referência à localização da região. “A proximidade da ilha ao Recife, onde ficava a sinagoga, também é um fator a ser levado em consideração. Acreditamos que o Cheira-Dinheiro saía daqui para participar dos cultos”, diz a pesquisadora Alekssandra Serbim, da Universidade Federal de Pernambuco. Outra pista é o nome do irmão do ‘avarento’, André Gomes Pena, que, em alguns documentos, aparece como André Gomes Pina (segundo estudos de Carlos Cavalcanti). Pina (o irmão do Cheira-Dinheiro), nas pesquisas de José Alexandre Ribemboim, também era proprietário do Engenho Nossa Senhora das Flores (ou Muribara), em São Lourenço da Mata, no período de 1598 a 1637.

O passeio até o local (que deve ser feito, preferencialmente, após a visita ao casco antigo do Recife) não possui, vale ressaltar, nenhum comprovante material histórico indicador de que o ‘avarento’ viveu no local. A visita ganha caráter de aula de História a céu aberto, com um ‘adendo’: o Parque de Esculturas de Brennand, um ponto estratégico para recompor a ‘trilha’ que o judeu fazia do Pina até a sinagoga, de barco. Como o local em si já é uma grande atração turística, esse trecho do roteiro termina unindo duas diferentes ‘linhas’ a um único passeio.

JUDEUS E SENHORES –É interessante observar que, assim como André Gomes Pina (ou Pena) e Diogo Fernandes, diversos judeus foram donos de engenhos em Pernambuco, contribuindo, dessa forma, para o apogeu econômico do Estado no período colonial. Apesar de muitos gerenciarem as terras de cana-de-açúcar sob o título de cristãos-novos, alguns judeus receberam importantes cargos já assumindo a sua religião (entre 1630 e 1654, quando Pernambuco esteve sob leis holandesas).

Os judeus foram realmente incorporados à elite econômica do Estado na segunda metade do século 17, de acordo com o livro A Presença Judaica em Pernambuco, de Tânia Kaufman. Atraídos pelos bons negócios gerados pelo açúcar e com suas práticas religiosas garantidas pelo governo de Nassau, os sefarditas (judeus provenientes da Península Ibérica) que chegavam em Pernambuco desfrutavam de privilégios da elite social e econômica. Foi nesse período, inclusive, que o hakhan (líder religioso) Isaac Aboab Fonseca chegou ao Brasil ao lado de outro líder religioso, Moses Raphael de Aguilar.

Alguns cristãos-novos, por sua vez, chegavam aos postos de donos de engenho após de casarem com cristãs-velhas, embora esse fator fosse mais raro. É importante lembrar que, naquele período, não havia posto mais importante no Estado do que o de um senhor de engenho. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 06.12.2001
Quinta-feira