Em Olinda, que abrigava em sua Cidade Alta uma comunidade judia, funcionou o único forte de resistência militar judaica no Brasil, a Casa de Guardas, mais tarde transformada na atual Igreja dos Milagres
Quem passa diante da singela Igreja dos Milagres, onde, há cerca de três décadas, o mar ‘engoliu’ algumas ruas de Olinda, não desconfia que ali a comunidade judaica exerceu sua única participação militar na História do Brasil. Em Pernambuco, os judeus não ficariam restritos ao comércio ou à produção açucareira. Com a liberdade religiosa do governo Maurício de Nassau, nos Milagres, segundo pesquisas históricas, funcionou uma milícia de resistência aos portugueses cuja guarda era exclusivamente judia.
As milícias que se formaram após a ocupação holandesa (1630) contavam com quatro companhias. A dos Milagres, não por acaso, seria conhecida como Casa de Guardas dos Judeus. Seria uma pequena fortaleza de pedras, no meio de uma restinga de areia, um fortim sem portas: para entrar nele seria necessário o uso de escadas portáteis. Como não resta uma só pedra da construção, permanece apenas sua memória histórica.
“Com a expulsão dos holandeses, após a última Batalha dos Guararapes, em 1654, a raiva dos portugueses não se restringiu à questão religiosa, mas também se deveu ao fato de os judeus terem ajudado militarmente os holandeses”, diz a pesquisadora Cláudia Gouveia, membro da equipe da antropóloga Tania Kaufman, do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco. Naquela fortaleza, os judeus teriam até o direito de reservar o sábado dos trabalhos, em troca do qual pagavam multas. Com o arrefecimento da luta contra os portugueses, esse ‘direito’ foi suspenso.
Com o fim da ocupação holandesa, em 1654, os judeus receberam, assim como os holandeses, ordens do general português Barreto de Menezes, comandante nos Guararapes, para abandonar o Brasil em três meses. Depois disso, ficariam sob as vontades da Santa Inquisição. “Não havia transporte suficiente para todos. Acredita-se que muitos desses judeus se refugiaram no interior”, aponta a pesquisadora. “Eles teriam voltado a ser cristãos–novos, tiveram descendentes católicos, mas teriam mantido práticas judaizantes”, diz. Um desses hábitos, por exemplo, seria a forma como os sertanejos costumam enterrar seus mortos em terras virgens ou como jogam pedras sobre túmulos.
Cerca de cem anos antes, na primeira metade do século 16, Olinda recebeu muitos dos judeus que o Reino de Portugal usou para a estratégica política de povoamento da colônia. Esses judeus, vindos da Penísula Ibérica, são conhecidos como sefarditas: tinham sua origem na Espanha, que, em hebraico, significa Sefarad.
É uma história de diáspora judaica: em 1492, os judeus que viviam na Espanha são expulsos pelos reis católicos. Vão para Portugal. Em 1946, contudo, Dom Manuel recebe em casamento a mão de Isabel, filha dos reis da Espanha. Ela exige a expulsão ou conversão desse judeus. Surge aí o primeiro ciclo de migração judaica para o Novo Mundo. Começa assim a primeira comunidade, ainda não-oficial, de judeus na América. Seu lugar de origem: Olinda, a principal vila urbana de Pernambuco, a única bem-sucedida das capitanias hereditárias na colônia.
A história dos judeus em Olinda, como não poderia deixar de ser, se confunde com a história do Santo Ofício no Brasil. Durante o século 16, eles ocupariam postos importantes do comércio na vila. A legendária Branca Dias, por exemplo, morou na Sé, onde hoje é a Rua Bispo Coutinho, então Rua de Palhaes. Na Rua Prudente de Moraes, à época Rua da Serralheira, viveram abastados comerciantes. De um deles, Manoel Cardozo, suspeita-se que recebia em sua casa, cuja localização exata não foi detectada, pessoas para práticas judaizantes. Cristãos convertidos ou cripto-judeus, aqueles cristãos-novos socialmente mas que, na intimidade, não abriam mão da cultura e religião judaicas, os judeus de Olinda viram a paz acabar com a chegada, em 1593, do ouvidor Heitor Furtado de Mendonça, representante da Inquisição.
Sua presença gerou um festival de delações. “A Inquisição prometia graça eterna em troca das denúncias”, diz a pesquisadora. Morador do Largo da Misericórdia, o ourives Ruy Gomes, por exemplo, teria sido denunciado porque nenhuma das peças que lhe encomendavam em ouro era confeccionada aos sábados. Filha de Branca Dias, Inês Fernandes, também moradora da hoje Rua Bispo Coutinho, foi denunciada porque passava os sábados descansando em redes. Assim, acaba-se a paz dos judeus pioneiros na América. Uma época em que o judeu Thomas Lopez, suposto morador do Varadouro, saía às ruas, nas sextas-feiras, avisando à comunidade que no sábado deveriam ornamentar as carroças para ir à sinagoga secreta do Engenho Camaragibe. Essa sua ‘função social’ também lhe rendeu denúncias ao Santo Ofício.
A paz, ainda assim breve, só voltaria com Nassau, quando surgiria a (hoje reformada) primeira sinagoga das Américas. E os judeus já não mais estariam em Olinda, mas na Moritztadt, a cidade maurícia do Recife (B.A.)