LG_jc.gif (3670 bytes)

COMPORTAMENTO
ESTRESSE INFANTIL

Acúmulo de atividades, cobrança excessiva, separação dos pais: vários fatores podem levar a criança a desenvolver um problemas ligado apenas aos adultos

por LUIZA MODESTO

Já foi o tempo em que estresse era um mal somente de adultos. Acredite ou não, ele também atinge as crianças. As explicações para que isso ocorra são diversas. Morte na família, separação dos pais, mudança de cidade ou escola, provas, dificuldade financeira na família e atividades extracurriculares em exagero podem tornar-se agentes provocadores de estresse infantil, advertem os especialistas.

Vale ressaltar que o estresse não é um estado desconhecido para os bebês. “Aquele choro desesperado no berço, quando está molhado ou com fome, nada mais é do que um indício de estresse”, lembra a psicóloga infantil Dulce Figueiredo. Nesse estágio, entretanto, ele não é motivo de preocupação. Assim como também não o é em outras situações, como o primeiro dia de escola ou a chegada do irmãozinho.

Nesses casos, ele pode ser positivo, pois é uma resposta natural que acontece durante o processo de amadurecimento infantil. “O estresse é um dos componentes naturais da vida de qualquer criança”, avisa a psicóloga Cynthia E. Johnson, da Universidade da Carolina do Norte, em seu artigo How to Deal with Stress (Como Lidar com o Estresse), disponível no site www.fww.org.

O quadro se complica quando os problemas familiares tornam-se uma constante. Essa realidade leva as crianças a experimentarem situações conflitantes além do que são capazes de absorver, levando-as ao estresse. Os efeitos desse mal moderno são muitos. Ele pode causar insônia, provocar suor frio nas mãos e pés, atrapalhar a concentração nos estudos, gerar agressividade, interferir no humor, entre outros sintomas.

Juan Felipe Loreto Linhares que o diga. Com apenas 9 anos, ele já sentiu os efeitos desconfortáveis desse mal.. Antes dele aparecer, Juan era um menino extrovertido, boa praça e de peso equilibrado. Depois do estresse, ele se irritava facilmente; seu humor era instável; comia além do limite e se isolava. Por último, na tentativa de chamar a atenção dos pais para sua aflição, o garoto resolveu danificar os eletrodomésticos da casa.

“Ele a arranhou a televisão novinha de ponta a ponta. O mesmo fez com a geladeira. O seu objetivo era claro: chamar a minha atenção e a do seu pai, mostrando que alguma coisa estava errada com ele”, conta a jornalista Gorete Linhares, professora da Universidade Federal de Pernambuco. Detalhe: ela e o marido estavam em processo de separação. A princípio, Gorete tentou resolver o problema sozinha, mas, como não obtinha sucesso, buscou ajuda de um profissional. “Ele continuava sinalizando que não estava bem, então decidi procurar orientação de um psicoterapeuta”, comenta.

CRESCEM OS NÚMEROS – A psicóloga infantil Dulce Figueiredo informa que o número de crianças apresentando um quadro similar ao de Juan tem crescido bastante nos últimos tempos. Na sua opinião, o pouco tempo destinado às brincadeiras típicas do mundo-de-faz-de-conta contribui para isso. “No brincar, a criança tem possibilidade de resolver seus conflitos e dificuldades, de exercer sua livre criatividade no espaço da fantasia e da ficção. Nele, o final é sempre feliz”, argumenta Dulce.

O lugar das brincadeiras lúdicas, lembra a psicóloga, foi tomado pelas atividades pós-escola, como inglês, natação, entre outras. “Normalmente, a iniciativa é sempre dos pais, restando à criança dar de conta da ‘tarefa’ para não frustá-los, não decepcioná-los. Isso também pode ser uma das causas do estresse infantil”, alerta.

O psicólogo Sílvio Romero Melo tem a mesma opinião. Culpando a sociedade contemporânea, Sílvio diz que é preciso os pais saberem dosar a quantidade de atividades extra-escola. “O medo de deixarem seus filhos com babás ou muito tempo em frente à televisão, eles sobrecarregam a agenda dos filhos”, comenta. Seguindo a mesma lógica de Dulce Figueiredo, ele critica a troca das brincadeiras lúdicas pelas aulas extracurriculares. “O ludismo é um aspecto extremamente importante para o bom desenvolvimento da criança”, enfatiza.

Maria Eliete Barros, mãe de Beatriz, 8 anos, concorda com Dulce e Sílvio. “Eu noto que minha filha não abre mão das brincadeiras com suas bonecas. Beatriz sempre fica contente nas tardes livres”, conta. A cobrança exagerada que os pais, muitas vezes, impõem sobre os filhos também pode gerar estresse. “Pede-se comportamentos das crianças que não são compatíveis com a sua idade. Espera-se sempre muito dos filhos em todos os campos”.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 14.01.2001
Domingo