O estresse acontece ao longo da infância em diferentes níveis, trazendo resultados positivos e outros negativos. Tudo depende da causa. Se o problema for resultado de uma tensão passageira, como um exame na escola, não há muito com o que se preocupar. Da mesma maneira que chegou, vai embora, sem deixar seqüelas. Se, ao contrário, o agente causador provém de uma situação emocional mais complicada e duradoura, como o excesso de atividades depois da escola ou cobrabça exagerada de comportamento, é bom ficar alerta para o comportamento de seu filho. Na entrevista a seguir, a psicoterapeuta Iacy Moreira dá sua opinião a respeito do assunto.
Jornal do Commercio – É verdade que criança também pode ficar estressada? Se possível, o que contribui para isso acontecer?
Iacy Moreira – Sim. O estresse é o resultado de uma situação de tensão, permanente, a qual o indivíduo encontra-se submetido. Sendo assim até o bebê pode vivenciar situações que o deixem estressado, como por exemplo, não ser atendido em suas necessidades numa fase em que depende totalmente dos cuidados de um adulto.
JC – Uma agenda cheia de atividades depois da escola pode ser um dos fatores que contribui para o estresse infantil ?
IM – Não só uma agenda cheia de atividades, mas são inúmeros os fatores que contribuem para a criança desenvolver o estresse. A cobrança excessiva quanto ao desempenho escolar (algumas escolas chegam a ter um quadro de classificação dos alunos), o desemprego eventual dos pais, o medo constante da violência são alguns dos fatores que contribuem para o desenvolvimento do estresse na infância.
JC – Como esse mal se manifesta e como os pais podem indentificá-lo ?
IM – Alguns sintomas servem como sinal de alerta. As crianças geralmente ficam mais agitadas, irritadas, choram sem um motivo aparente, apresentam um baixo rendimento escolar, tornam-se agressivas, ansiosas, sem apetite ou comem demais. Esses são alguns sinais que podem sugerir um quadro de estresse infantil. É necessário observar como estão as crianças, avaliando seus sentimentos, ouvindo-as e identificando suas necessidades.
JC – O que os pais devem fazer após um diagnóstico positivo?
IM – Em primeiro lugar é preciso admitir que o estresse está presente. Após um diagnóstico positivo, avalia-se o grau de estresse e o momento de vida da criança, na tentativa de se descobrir o fator desencadeante. Há casos em que o estresse é benéfico. Na véspera de uma prova, por exemplo. Isto porque, quando o fato é isolado e a tensão temporária, o organismo volta ao seu estado normal tão logo o problema seja ultrapassado. Se os sintomas de estresse persistem e a criança apresenta um desgaste constante, a procura de um profissional de Psicologia faz-se necessária.
JC – Existe uma tendência na sociedade atual de cobrar das crianças mais do que suas idades permitem. Esse tipo de cobrança pode acarretar em estresse?
IM – Sem dúvida a exigência de um amadurecimento precoce, onde a criança precisa exercer funções que não condizem com a sua idade pode ser um fator estressante. O que considero e enfatizo como necessário é que a criança tenha, durante o dia, momentos de plena ‘falta de atividades’, que tenha tempo livre, sem atividades direcionadas. Enfim, devemos evitar o excesso de atividades impostas às crianças pela vida moderna e permitir que elas tenham mais tempo para brincar. Para ser criança. A criança que tem todos os seus horários preenchidos com atividades em que necessite provar um bom desempenho, faz com que o nível de sobrecarga seja maior do que a criança possa suportar. Isso pode gerar um sentimento de incapacidade e, conseqüentemente, de incompetência. O que, por sua vez, desencadeia grande ansiedade, causando estresse.