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A volta do cigano

Violonista Ednaldo Queiroz deixa a reclusão em Bodocó para retomar a carreira, interrompida há uma década

por MARCOS TOLEDO

Imagine-se em Nova Iorque e, de repente, deparando-se com um indivíduo natural do município sertanejo de Bodocó (distante 685 km do Recife). Imagine ainda que valor você daria a essa figura. Pois foi numa passagem pela Big Apple, para gravar o que seria seu segundo CD, que o bodocoense Ednaldo Queiroz ganhou cancha para se tornar um dos violonistas mais respeitados do Brasil. Após uma década de reclusão, desiludido com o mercado, o músico volta para a terra do ‘Tio Sam’, em outubro, convidado para se apresentar durante o 16º Festival Anual Latino-Americano de Filmes.

A vida de Ednaldo Queiroz, 44 anos, já daria para escrever um livro dado as aventuras e desventuras passadas pelo artista. Na supracitada Bodocó, interessou-se pela música ainda criança, aos sete anos de idade, e ganhou da mãe seu primeiro violão – ato que retribuiria, 11 anos depois, com uma casa própria.

A carreira do violonista, contudo, ganharia um diferencial quando ele passou a conviver com um bando de ciganos, muito comuns em Bodocó, pertencente à tribo dos calons. Além de aprender um pouco da cultura desse povo nômade, com um membro, especificamente, Ednaldo assimilou o tradicional toque flamenco, originário do norte da Espanha.

Ednaldo Queiroz desenvolveu, a partir desse conhecimento, uma fusão de ritmos que une o toque flamenco aos ritmos tradicionais nordestinos, que escutara desde a infância, como o xote e baião. “Minha música é a nordestina com tratamento cigano”, define. De posse de um único violão, executa solo e acompanha a si mesmo dispensando o esforço para o qual seria necessário um conjunto.

DISCOS – Em 1988, após trabalhar por diversos anos acompanhando de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Sebastião Tapajós a Márcio Greick, Reginaldo Rossi e Jerry Adriani, o músico bocoense teve a oportunidade de gravar seu primeiro álbum solo. Fantasia Nordestina, com 14 faixas, tornou-se possível depois que o violonista faturou o quarto lugar no festival MPB Shell de 1982, com a música Quero mais.

O segundo CD, Dança Cigana, Ednaldo gravou em 1990 a convite da gravadora American Disc Corporation. Do Recife – onde veio morar para se formar em Letras e Administração, na Universidade Católica, e cursar Música (não-concluído), na Universidade Federal – partiu para Nova Iorque, onde chegou num dia de inverno sob uma temperatura de 11°C.

SUCESSO – Na Big Apple, foi recebido pelo percussionista Naná Vasconcelos e pelo produtor local Arto Lindsay. Aclamado pelo público e pela crítica norte-americanos, o violonista voltou ao Brasil com cacife e realizou diversos espetáculos no Recife, Rio de Janeiro e em Salvador. “Entre 1991 e 92 fiz quase 60 shows”, lembra. Também no Brasil, teve seu Dança Cigana lançado pela gravadora paulista Eldorado, que vendeu 22 mil cópias do trabalho.

A preocupação com a saúde da mãe, que teve alguns indícios de estar à beira de um derrame, fez Ednaldo largar tudo para voltar a viver em Bodocó. Aventurou-se no ramo da propaganda política e, devidamente capitalizado, investiu em um equipamento de som e luz que, acreditava, usaria como meio de sobrevivência.

A falta de recursos na região onde vive, no entanto, fez com que o instrumentista encalhasse todo o seu material. A tristeza se tornou absoluta e Ednaldo optou por deixar de tocar. “Era a última coisa que eu queria falar”, relembra. “Passei seis anos sem tocar.”

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Jornal do Commercio
Recife - 14.09.2001
Sexta-feira