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Fora dos trilhos

O caso da malha ferroviária do Nordeste, cuja concessão foi passada a um grupo privado em 1997, está entre as privatizações, poucas, que não deram certo. Já tratamos desse tema algumas vezes e, esta semana, o Jornal do Commercio está publicando a respeito uma série de reportagens muito esclarecedoras (dos nossos repórteres Ângela Fernanda Belfort e Jamildo Melo). Já cansamos de repetir que, em qualquer país do mundo, sobretudo com grande extensão territorial, como é o caso do Brasil, o transporte ferroviário é essencial ao desenvolvimento, tanto no transporte de cargas, como no de passageiros. Além disso, apesar de o investimento numa estrada de ferro ser elevado, sua manutenção é muito mais barata que a de uma estrada de rodagem. Na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, na Rússia, até na Índia e na China, o trem é uma alavanca de desenvolvimento. Mesmo no auge da expansão automobilística e do chamado ‘rodoviarismo’, eles não só mantiveram, mas continuam ampliando e modernizando suas malhas ferroviárias.

Nós, com toda a extensão continental do País, nunca tivemos uma integração ferroviária nacional. As ferrovias regionais, contudo, tiveram papel importante na construção do nosso progresso. Uma política de empreguismo e sem planejamento, aliada ao fervor rodoviário dos anos 50, abalou seu prestígio e deu início a sua decadência, com raras exceções. A malha de estradas de ferro do Nordeste, pertencente à Rede Ferroviária Federal (RFFSA), entrou em decadência desde os anos 40, quando ainda era a Great Western dos ingleses e eles perderam o interesse em investir no empreendimento, mais ocupados em investir na guerra contra os nazistas. Após a estatização, a maneira brasileira de administrar sem planejamento, sem visão estratégica e sem atenção ao interesse nacional fez o resto.

A salvação, acreditou-se, estava na extensão às ferrovias do processo de desestatização lançado com êxito nos anos finais do século passado. A RFFSA e outras estradas de ferro tiveram sorte na privatização de algumas malhas. A malha Nordeste (de Alagoas ao Maranhão) não teve sorte. A prestação de serviços piorou e não se salvou nem o folclórico Trem do Forró, que levava turistas a Caruaru nas festas juninas. A falta de manutenção (já era precária antes) aumentou o número de acidentes. O transporte de cargas fez marcha a ré. Enfim, nenhum dos compromissos assumidos em contrato pela concessionária (Companhia Ferroviária do Nordeste, CFN) foi cumprido. Tudo ao contrário da expectativa favorável ao processo geral de privatização. O projeto da Ferrovia Transnordestina foi esquecido pela CFN e o governo é quem pretende investir nele mais de R$ 700 milhões, em vez de cobrar a concessionária e aplicar as multas contratuais. Mesmo assim, não vai adiantar a Transordestina, se não se investir na recuperação e manutenção do restante da Malha Nordeste. Segundo parecer do TCU, o governo foi “omisso e complacente”. Não satisfeito, se dispõe a continuar repassando recursos públicos à CFN. Já conhecíamos um certo capitalismo à brasileira, especulativo e sem compromisso produtivo; agora temos uma privatização à brasileira.

Conforme podemos nos informar na referida reportagem, se a Malha Nordeste já não funcionava nas mãos do Estado, virou, paradoxalmente, um desastre com uma ‘iniciativa’ privada sem iniciativa. Estações do tempo dos ingleses são abandonadas e depredadas, dormentes são roubados, a unidade de reparos e recuperação de locomotivas que havia em Edgard Werneck (Grande Recife) foi desativada, e demitidos engenheiros e operários que entendiam do seu ofício. Um patrimônio de mais de 100 anos, com mais de 4.500 quilômetros de trilhos, de Propriá a São Luís do Maranhão, que já vinha sendo desmontado, tem acelerado esse desmonte quando passa do Estado para um grupo privado. Uma desmoralização inadmissível do processo de desestatização.



Jornal do Commercio
Recife - 14.09.2001
Sexta-feira