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COMPORTAMENTO II
Complexo é essencial para mulher

Psicanálise considera que o extremo amor de uma menina pelo pai é completamente natural nos primeiros anos de vida e ainda na puberdade

O termo complexo de Eletra foi cunhado por Jung e não por Freud, como se poderia supor. O pai da Psicanálise considerava que as mulheres, em sua fixação pela figura paterna, passariam por uma variante feminina do complexo de Édipo. Importante ao desenvolvimento psíquico saudável da mulher – essencial até – , o complexo de Eletra, contudo, pode provocar desconfortos durante a idade adulta se não for bem vivido nas fases em que se mostra com mais força ou se, durante a vida, for exacerbado. “As mulheres podem desenvolver comportamentos anti-sociais e perversões de ordem sexual”, aponta o psicanalista Antônio Carlos Escobar.

O que a moral social muitas vezes tem receio de assumir é perfeitamente natural aos olhos da Psicanálise. O desejo incestuoso do filho pela mãe, por exemplo, é um dos pilares, durante a infância, para o futuro equilíbrio psíquico. Gerado e amamentado pela mãe, o filho, ao perceber a existência do pai, vai enxergá-lo como um terceiro elemento que irá se introduzir na relação. “O desejo incestuoso ocorre devido ao receio de ser excluído da relação pai e mãe”, observa Escobar. “Pelo temor da perda do amor materno, a relação com o pai passa a ser de amor e ódio”, continua. Ao abandonar o mundo natural, ou seja, ao descobrir que a existência é regida por leis da cultura (não naturais), o filho acaba sucumbindo ao poder do pai.

“Ao final, o filho acaba instalando dentro dele uma lei, a lei que proíbe. Ele renuncia à mãe e se identifica com o pai. Internaliza o pai que dizia não. A metáfora (do complexo de Édipo) é usada para explicar esse amor-renúncia-capitulação”, expõe o psicanalista. Daí, no futuro, a procura de uma mulher cuja matriz essencial será a materna. Um breve apanhado sobre o que ocorre no complexo de Édipo é importante para entender sua variante feminina.

Freud considera que esses conflitos ocorrem até os quatro anos de idade. “Tanto para a menina quanto para o menino, a mãe é o primeiro objeto do amor”, diz Escobar. Portanto, caminhos diferentes na vivência dos complexos. Na visão falocentrista de Freud, tanto o homem como a mulher valorizam a posse do pênis. “Então, a menina se volta para o pai como alguém que precisa renunciar a mãe e ‘adquirir o pênis’, numa metáfora de força. Ela busca no pai o que falta na mãe”, diz. “Futuramente, a escolha do parceiro também respeitaria as imagens do pai.”

Isso também ocorre na primeira infância. “Fica latente na puberdade. Com a explosão hormonal, o fenômeno reaparece”, pontua Escobar. Tanto para homens, como para mulheres, a exacerbação dessas fases pode trazer dificuldades comportamentais na vida adulta. Por exemplo: dificuldades de lidar com limites. (B.A.)

ELETRAS MODERNAS

Quem são elas:

Filha sem o mínimo pudor de declarar amor pelo pai

Acham que o pai é um verdadeiro protótipo do comportamento masculino ideal

Têm grande admiração, afeto e cuidado com o pai, que costuma ser grande amigo

Possuem ciúmes do pai, sentimento profundamente ligado à atenção e cuidado

Psicanaliticamente falando, acabam projetando a figura paterna sobre os parceiros amorosos

A mulher procura encontrar no pai as metáforas de força que, segundo as teorias falocentristas de Freud, a mãe não possui

A ELETRA CLÁSSICA

Quem foi ela, segundo a mitologia grega:

Jung se apropriou de uma leitura incestuosa do mito grego de Eletra para classificar com seu nome o que Freud chamaria de variante feminina do complexo de Édipo. Filha de Clitemnestra e Agamenon, rei de Argos e um dos conquistadores de Tróia, Eletra foi escravizada pela mãe depois que ela, com seu amante Egisto, matou o rei, seu marido. Anos depois, os irmãos se reencontraram e vingaram o assassinato do pai. Orestes matou a mãe e Egisto com a ajuda e sob a influência de Electra. Toda a ação de Eletra, sua competição com a mãe, estaria permeada por um desejo incestuoso pelo pai.

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Jornal do Commercio
Recife - 09.09.2001
Domingo