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TERROR NOS EUA XXIII
Bin Laden e o Afeganistão

por MARCELO ABREU
Especial para o JC

O Afeganistão se tornou o mais previsível alvo de uma eventual resposta militar norte-americana aos atentados de terça-feira nos Estados Unidos por abrigar uma base do milionário saudita Osama Bin Laden. Apontado como um dos prováveis responsáveis pelos ataques, Bin Laden, 44, tem uma longa história de envolvimento com o Afeganistão. Lutou com as tropas soviéticas entre os guerrilheiros mujaheddin. Entre 1979 e 1989, com ajuda de potências ocidentais, eles resistiram à invasão soviética (que pretendia manter um governo comunista na região).

Com a retirada dos soviéticos, os mujaheddin se dividiram em várias facções e continuaram a guerra civil. Isso fez com que Bin Laden tenha se ‘desiludido’ com o Afeganistão e partido para o Sudão (África), também em guerra civil. No Sudão, o milionário saudita estabeleceu campos de treinamento para terroristas e ajudou as tropas fundamentalistas.

Em 1996, com a vitória dos guerrilheiros do Taleban, voltou ao Afeganistão e obteve refúgio do novo governo. Além dos homens de Bin Laden, o Taleban foi apoiado pelo Paquistão e EUA para chegar ao poder. Os norte-americanos viam o Taleban como uma alternativa para conter a influência iraniana na área.

Estive em vários pontos da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão há alguns anos e o panorama era desolador. Afundado na guerra civil, o Afeganistão era uma país com sua estrutura em ruínas. O Taleban já controlava o sul, mas não conseguia reconstruir nada, por ter suas atenções todas voltadas para os combates no norte do território.

Ao voltar em 1986, Bin Laden mandou construir um palácio em Kandahar, sul do país, segunda cidade mais populosa e berço do movimento Taleban. Seu paradeiro atual é incerto. Se estiver mesmo envolvido nos atentados, é possível que tenha saído do país para evitar retaliações.

Um eventual ataque militar ao Afeganistão intensificaria a destruição de uma região que vive em guerra há 22 anos e é um aterrorizada pelas minas terrestres. Cerca de seis milhões de afegãos se refugiaram devido ao conflito civil. Os atentados em Nova Iorque e Washington aconteceram num momento em que a Aliança do Norte (coalizão de grupos armados que lutam contra o Taleban) retornava seus ataques à capital Cabul. A aliança controla hoje apenas cinco por cento do território nacional e um de seus líderes, Ahmed Shah Massoud, foi assassinado.

Sob o comando do Taleban, o Afeganistão tornou-se o mais fundamentalista dos países islâmicos. A sharia, conjunto de regras de conduta islâmico estabelecidas há séculos, foi implantada: as mulheres foram obrigadas a usar a burka, manto que cobre todo o corpo, inclusive a cabeça e os olhos. Foram proibidas de trabalhar e estudar. Os homens são obrigados a usar a barba longa e podem ser chicoteados se desobedecerem. A música, a televisão e o cinema foram banidos.

O Taleban tem sua base de apoio na etnia pashtun, que habita as montanhas ao sul do País e também no noroeste do vizinho Paquistão. Por isso, são detestados pela etnia dari, que vive ao norte. O Afeganistão é habitado por mais de 15 grupos étnicos, cada qual com sua língua. Na língua pashto, taleban significa “aqueles que procuram”. No caso, a procura é pela ‘pureza’ e pela ‘iluminação religiosa’.

O Taleban, na verdade, é um movimento estudantil radical que surgiu nas madrassas, as escolas islâmicas espalhadas pelos países muçulmanos. Agora, se decidirem desafiar os EUA não entregando Bin Laden, devem passar pelo mais difícil teste para sua sobrevivência.

Marcelo Abreu é jornalista e autor do livro De Londres a Kathmandu

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Jornal do Commercio
Recife - 14.09.2001
Sexta-feira