LG_jc.gif (3670 bytes)

NOVA IORQUE
Terror muda a paisagem

Em poucos minutos, um dos maiores cartões postais de Nova Iorque – e do mundo – desapareceu sob o olhar incrédulo de milhões de pessoas

por FABIANA MORAES

“WORLD TRADE CENTER: as famosas ‘Torres Gêmeas’ são hoje os edifícios mais altos de Nova Iorque. Em uma viagem de aproximadamente 1 minuto, o elevador leva ao 107º andar, onde os visitantes apreciam, do observatório, a mais bela vista de New Jersey. O World Financial Center e o WTC fazem um conjunto inseparável do perfil da cidade.” Esse é o texto de uma famosa agência de turismo brasileira que vende pacotes turísticos para Nova Iorque. Até a segunda (10), véspera da tragédia que matou milhares de pessoas nos EUA, vários eram os pacotes já vendidos aos clientes que, entre outros monumentos, ansiavam por uma visita ao mais alto edifício novaiorquino. Agora, o que resta do WTC são escombros, fotos, vídeos e postais. Os últimos itens ganharam, inclusive, uma importância nunca registrada: suas vendas dispararam em NI e os cartões-postais nos quais se vê as torres estão quase esgotados. Como dizia o texto da agência brasileira, “a paisagem era o puro perfil da cidade”. O erro, no caso, foi pensar que ela seria inseparável.

Visitar o distrito financeiro de Nova Iorque era tarefa incluída na rota de quem também ia até a Estátua da Liberdade e o Empire State. Ou seja, era similar ao roteiro de um turista que chega ao Rio e, num só dia, conhece o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e Copacabana. Cerca de cinco mil pessoas subiam até o terraço localizado em uma das torres para apreciar as vistas de Manhattan, do Brooklyn e de New Jersey.

“A gente podia ver tudo de lá, dependendo do ponto onde estivesse”, lembra a jornalista Karina Falcone, que chegou a poucos meses de Nova Iorque, onde morou por dois anos. Um dos fatos irônicos em relação à história posterior do edifício é que, antes de subir, todo turista era revistado, inclusive passando por detectores de metais. “Eles até abriam a bolsa da gente”, continua Karina. A outra torre do WTC guardava o casual e descolado restaurante Wild Blue, na área conhecida como Windows of the World (janelas do mundo), justamente por sua altura. Ali se misturavam turistas e moradores da cidade, sem distinção. A comida do chefe Michael Lomonaco era reconhecida por mostrar ao mundo que nem só de cachorro-quente vive a Big Apple. A cerimonialista Tatiana Marques é uma fã assumida de NI, a qual ela se refere como “uma cidade do mundo”. “Na verdade, tenho medo de altura, por isso sempre ficava apreensiva quando ia até o World Trade Center. Mas ficava encantada com a visão que se tinha da cidade”, lembra.

RECONSTRUÇÃO – Todos os números relacionados às Twin Towers são grandiosos. As gêmeas eram um dos prédios mais altos do mundo, com 415 e 413 metros de altura e 110 andares cada. A fundação do prédio tinha 23 metros. Nada menos do que quinhentos escritórios funcionavam ali, levando o edifício a receber 10 mil funcionários em cada uma das torres. Estima-se (os números são bastante variados nesse caso) que 50 mil pessoas circulassem no local diariamente. No local, ainda existiam um shopping, livrarias, uma grande praça e dezenas de lojas. “Antes de ser um símbolo novaiorquino, as torres eram uma espécie de símbolo mundial”, acredita Tatiana, que pretende voltar brevemente à Nova Iorque. Já o engenheiro civil Flávio Acioly, que esteve na cidade em junho deste ano, lembra do ótimo passeio que fez no subsolo do WTC, onde funcionava o shopping de dois andares. “Lembro que era um local muito movimentado, já que ali funcionava uma saída de metrô”. Flávio, chocado, diz ter se visto no lugar da tragédia quando ela aconteceu. “Acho que todo o turista que foi até ali algum dia deve ter sentido o mesmo”.

Os orfãos das torres, porém, querem vê-las novamente dominando os céus de Manhattan. Já foi lançado um apelo por parte do ministro italiano da Indústria, Antonio Marzano, convocando toda a Europa para reconstruir uma das gêmeas. A ação seria um sinal de solidariedade da União Européia aos perplexos norte-americanos. Já o prefeito de NI, Rudolph Giuliani, também vai estudar formas de reerguer o World Trade Center. Giuliani, que estava próximo ao local dos acidentes, assegura que, dentro de alguns anos, um novo edifício estará de pé. A idéia, com certeza, deve agradar à maioria da população dos Estados Unidos e, especialmente, da Big Apple. Até porque, sem os dois imensos prédios, a cidade nunca mais será a mesma.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 13.09.2001
Quinta-feira