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FERNANDO DE NORONHA IV
O incrível show dos golfinhos

A Baía dos Golfinhos chega a concentrar cerca de dois mil golfinhos rotadores durante as manhãs em Noronha

A cena se repete diariamente no Porto de Noronha: por volta das 13 h, os barcos começam a atracar para receber gente que pagou em média R$ 30 pelo passeio que irá durar cerca de quatro horas. Depois de uma volta por todas as ilhas secundárias de Fernando de Noronha ( a ilha homônima é apenas a principal delas ), os barcos partem para os arredores da Baía dos Golfinhos. Aqui está o cobiçado palco para o show que os golfinhos repetem dia após dia.

O horário de saída das embarcações do porto não é aleatório. Obedece à rotina que os cetáceos estabeleceram na ilha. A partir das 5 h, eles começam a chegar em grupos para o interior da baía. Ao meio-dia, podem estar até dois mil deles naquela região da ilha, uma área de rigoroso controle ambiental, onde a presença humana é vetada. Por isso, os barcos ficam no entorno da baía, a partir do início da tarde. É nesse horário que os golfinhos começam a sair para o alto-mar ou para as outras praias do arquipélago.

Quase invariavelmente, eles vem ao encontro dos visitantes. O barulho dos barcos atrai os golfinhos. “Os machos, protetores do bando, costumam se aproximar dos barcos para distrair a atenção dos turistas, enquanto o resto do grupo, como filhotes e fêmeas, passam por baixo, sem serem notados”, explica a bióloga Elizeth Pandolfo, membro do Projeto Golfinho Rotador, cujo objetivo é estudar o comportamento dos animais e estipular sua população no arquipélago.

Em terra firme, o espetáculo, no entanto, já terá começado desde cedo. No início da manhã, quando os golfinhos chegam por água, os turistas chegam pela trilha de chão batido que dá acesso ao mirante de 55 metros de altura para o qual a baía se descortina.

Com o sol quente, eles começam suas atividades no lugar. Ali, os golfinhos amamentam, descansam e fazem sexo. “Eles copulam o tempo inteiro”, diz a bióloga.

São os grupos de cópula os que mais chamam a atenção, tanto de quem está no mirante, como de quem os avista dos barcos. São os mais agitados. Saltam fora da água com freqüência. Naturalmente polígamos, eles mudam facilmente de parceiros. A fêmea costuma ser cortejada por até dez machos simultaneamente. O mais próximo vira-se com o ventre para cima e copula. Depois, ele vai para o final da fila e outro macho copula. Daí, a estrutura familiar matriarcal.

Há uma hipótese de que os golfinhos praticam sexo não apenas por finalidades reprodutivas, mas também por prazer. A tese ganhou estatura depois de que, este ano, pesquisadores identificaram comportamento homossexual entre os golfinhos de Noronha.

SINFONIA HIPNÓTICA –Em silêncio, os visitantes podem ouvir as ‘vozes’ dos golfinhos. Isso, até do alto do mirante da baía, onde a mistura do som dos pássaros, dos ventos e das batidas que os golfinhos dão na água compõe uma sinfonia única, meio hipnótica. A ‘voz’ deles, na verdade, consiste numa espécie de vocalização que eles usam para se comunicar com o resto do grupo (ao ouvir o som, é inevitável recordar o famoso seriado. Quem não se lembra de Flipper, praticamente não soube o que era televisão durante a infância). O movimento do corpo, que os faz levar o nome de rotadores, é outro recurso que eles usam para a comunicação.

“Essa espécie possui um osso na coluna que é mais afastado, o que permite a rotação sobre o próprio eixo”, diz a bióloga. “A rotação pode indicar que o golfinho está convidando outros do grupo para segui-lo”, diz Elizeth. Uma batida horizontal na água, diz ela, significa que o golfinho está convidando os outros para se deslocarem a outro lugar. Uma batida vertical sinaliza agrupamento, assim como uma batida da calda na água.

No início da tarde, quando eles começam a sair da baía, os golfinhos podem ser vistos, com sorte, em qualquer uma das praias de Noronha, antes que saiam para o mar aberto, onde vão se alimentar. Um dos lugares em que eles tem sido vistos com freqüência é a área do porto.

O mais certo para vê-los, no entanto, é ir à Baía dos Golfinhos. Do alto do mirante ou nos barcos que vão até a fronteira da enseada, avistá-los é uma festa de excitação para os sentidos. Quem duvida, deve experimentar. (B.A.)

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Jornal do Commercio
Recife - 13.09.2001
Quinta-feira